quinta-feira, 8 de março de 2012

Caiu a máscara: Investigação descobre fraude da blogueira cubana Yoani Sánchez

- por Jorge Lourenço, Jornal do Brasil

Velha opositora do governo cubano, a blogueira Yoani Sánchez teve um dos seus truques revelados pelo jornalista francês Salim Lamrani. De acordo com uma investigação conduzida por ele, o perfil de Yoani Sánchez no Twitter é artificialmente "bombado" por milhares de perfis falsos.

Generación Y
Sob o nome de Generación Y, o mesmo do blog que a deixou famosa, o perfil de Yoani no microblog tem 214 mil seguidores. Considerada pela mídia estrangeira como "influente", ela é seguida por apenas 32 cubanos. Mas as estranhezas não param por aí.

Super-seguidora
Yoani segue 80 mil pessoas no Twitter, um número completamente descabido. Conforme Salim Lamrani apurou, a blogueira cubana usa sites de troca de seguidores para aumentá-los e parecer mais popular na internet. Em troca de receber novos usuários, ela precisa segui-los. Daí a razão para seguir 80 mil perfis no Twitter.

Super-seguidora II
A fraude da cubana não para por aí. Do total, cerca de 47 mil seguidores do Yoani são falsos. São usuários que não são seguidos por ninguém, não seguem ninguém mais exceto a própria blogueira e sequer têm fotos de perfil.

O medo chama
Vazamentos recentes do Wikileaks indicam que o sucesso de Yoani na internet também tem o dedo do governo norte-americano. Nas correspondências, funcionários do governo americano mostram preocupação com as mensagens pessoais da blogueiras, que poderiam comprometê-la internacionalmente.

Escândalo abafado
A cubana, aliás, protagonizou um dos momentos mais pitorescos da imprensa internacional nos últimos anos. Ela convocou vários jornalistas para uma coletiva de imprensa na qual explicaria um suposto sequestro seguido de espancamento em público. Os agressores seriam integrantes do governo de Fidel Castro.

Só que Yoani apareceu na coletiva sem qualquer traço de agressão no corpo, não soube explicar como as manchas sumiram num intervalo de 24 horas e não apresentou qualquer testemunha.

Brasil tem a menor desigualdade da história

m a menor desigualdade da história

Hoje, no lançamento da pesquisa “De volta para o país do futuro”, o economista Marcelo Néri, anunciou que, segundo os dados do IBGE, o Brasil atingiu o menor íncide de desigualdade de sua história. Os números preeliminares indicam que o índice de Gini do paísa atingiu 0,519 – quanto mais baixo, numa escala de zero a um, mais igualdade – atingindo um número 3,3% menor que o piso histórico, de 1960.

Emnbora continuemos a ser um dos países mais desiguais do mundo, o economista classificou de “espetacular” a queda obtida desde os 0,5957 de 2001 e afirmou que “a renda dos 50% mais pobres cresceu 68% em 10 anos e a renda dos 10% mais ricos cresceu 10%, ou seja, a renda dos 50% mais pobres está crescendo seis vezes mais rápido do que a renda dos 10% mais ricos em uma década”.

Néri chamou de “milagre chinês” o crescimento da renda dos mais pobres, e estimou que a pobreza caiu 7,5% entre 2002 e 2008, aumentou 2,1% com a crise de 2009 e voltou a cair fortemente em 2010 (-8,8%) e em 2011 (-11,7%).

E os números sobrfe os quais a FGV trabalhou, esclareça-se, ainda não captam os efeitos do aumento do salário-mínimo em janeiro.

post do tijolaço

Foda, né?




Corte dos juros marca ínicio da expansão

Confirmando a mudança nas previsões, o Banco Central acaba de anunciar um corte de 0,75% na taxa Selic, o ´rincipal indexador da dívida pública brasileira e o balizador das taxas interbancárias, que vão formar – acrescidas de robustíssimos “spreads” - a ponta final do crédito ao consumo e à produção.

É a primeira vez, desde junho de 2009, que a taxa de juros brasileira cai abaixo dos 10%.

Poderia ter caído até 1%, mas há uma semana aqui já se explicava o que travou essa ousadia.

Neste mês, os jornais anunciavam a segunda queda seguida nos resultados trimestrais do PIB.

Ao contrário de agora que, mesmo moderadíssima, se registra expansão da economia e, também ao inverso de então, uma taxa de desemprego perto de caracterizar uma situação de plenitude no aproveitamento da força de trabalho.

Quem tiver memória se recordará que, naquela ocasião, Lula fazia campanha aberta pela redução dos juros bancário e, dentro dos limites institucionais, sobre o então presidente do BC, Henrique Meirelles, que mesmo com a explosão da crise mundial manteve por um longo tempo alta a taxa de juros interna, em nome do combate à inflação.
E a inflação, por sua vez, acumulava um índice não muito diferente (5% anuais), não muito diferente dos 5,7 ou 5,8% que, amanhã, com a divulgação do IPCA de fevereiro, teremos hoje para os últimos 12 meses.

Dá para perceber que, tal como ocorreu então, tudo está pronto para um novo ciclo de expansão da economia, um pouco menos exuberante que o de 2010 apenas porque a base de comparação, agora, não é negativa como foi a de 2009.

Não há nenhuma razão para duvidar de que temos diante de nós um período de expansão econômica.

Para desespero do pessoal da “roda presa” que não consegue pensar senão em crise.

Afinal, de crise em crise, eles ficaram ricos e o país, pobre.

post do tijolaço

A nona cruzada, ou de como o dinheiro muçulmano está sendo canalizado para matar os filhos de Allah






As eleições para o parlamento iraniano foram um claro recado a Israel.

E por extensão aos Estados Unidos.

Vocês perderam uma ótima oportunidade ao não dialogar com Ahmadinejad, um moderado.

Enquanto isso, Netanyahu, o bibi de Israel, se encontra nos Estados Unidos para ameaçar o Hussein.

Justiça seja feita. O Hussein Obama tem se desdobrado para agradar ao lobby judaico.

Esbravejou para quem quiser ouvir que está com o porrete, os iranianos que se cuidem.

É verdade que esse negocio de porrete já não assusta ninguém.

O Iraque foi invadido e ocupado, o Afeganistão foi estuprado e a Líbia esquartejada.

Mas o povo desses países continua resistindo e sangrando o império.

Assim como o povo sírio.

Se os serial killers que governam Israel quiserem invadir o Iran terão que fazê-lo sem ajuda dos Estados Unidos.

Pelo menos tem sido esse o recado do neurótico Barack Hussein.

Primeiro diz que está com o porrete, depois diz que não é o momento.

Principalmente agora que está correndo uma saynieh (coleta) entre empresários muçulmanos de vários países para rechear o cofre do candidato à reeleição.

Inclusive empresários libaneses, amigos da Arábia Saudita.

A idéia é atingir os 500 milhões de dólares.

Trezentos milhões, a Arábia Saudita e emirados já enviaram.

Faltam, portanto, 200 milhões.

Dinheiro de muçulmanos para matar muçulmanos.

Afinal, Iraque, Afeganistão e Líbia são nações islâmicas, assim como a Síria e o Iran.

Isso é ou não é a nona cruzada?

Pobre Saladino...

sexta-feira, 2 de março de 2012

As raízes norte-americanas do nazismo

Domenico Losurdo
por Domenico Losurdo [*]

A invasão do Iraque, em Março de 2003, foi acompanhada por uma curiosa campanha mediática contra os movimentos de oposição à guerra, acusados então de anti-americanismo. É muito significativo que neste clima ideológico e político os acusadores não recordassem o terror exercido pelo Ku Klux Klan em nome do “americanismo puro”, ou do “americanismo cem por cento”, face aos negros e aos brancos que se opunham à supremacia branca. Tampouco recordavam a caça às bruxas de McCarthy contra os defensores de ideias ou sentimentos “não americanos”.

Em 1924, Correspondance Internationale (a versão francesa do órgão da Internacional Comunista) publicava um artigo escrito por um jovem indochinês imigrante nos Estados Unidos, no qual afirmava sentir grande admiração pelo desenvolvimento norte-americano, ao mesmo tempo que se horrorizava com a prática do linchamento de negros no Sul.


Um desses espetáculos de massas é descrito cruamente nesse texto:

"O negro é cozido, flamejado e queimado, pois deve morrer duas vezes em lugar de uma só. É depois enforcado, ou mais exatamente, o que resta do seu corpo é pendurado... Quando já todos estão saciados, o cadáver é descido. A corda é então cortada em pequenos pedaços, cada um dos quais será vendido por três a cinco dólares”.

No entanto, a denúncia do sistema de supremacia branca, não implicava uma condenação global dos Estados Unidos: a Ku Klux Klan tinha toda “a brutalidade do fascismo”, mas seria derrotado, não só pelos negros, judeus e católicos (todos vítimas em diferentes graus), como por "todos os americanos decentes". [1]

UM MARAVILHOSO PAÍS DO FUTURO

Foi um indochinês que comparou o Ku Klux Klan com o fascismo, mas as semelhanças de ambos os movimentos eram também evidentes para os autores norte-americanos da época.

Os homens vestidos de branco do Sul dos Estados Unidos eram frequentemente comparados aos camisas negras italianos e aos camisas castanhas alemães. Após assinalar as semelhanças entre o Ku Klux Klan e o movimento nazi, um acadêmico norte-americano da época chegava à seguinte conclusão:

“Se a Depressão não tivesse atingido a Alemanha tão duramente, o nacional-socialismo poderia ser hoje considerado como o é às vezes o Klan: uma curiosidade histórica predestinada ao fracasso”. [2]

Por outras palavras, o que explica, tanto o fracasso do Ku Klux Klan nos Estados Unidos, como a ascensoão do Terceiro Reich na Alemanha, mais que as distâncias na história ideológica e política, são os diferentes contextos econômicos. Mas deve também ser considerado o importante papel desempenhado pelos movimentos reacionários e racistas norte-americanos como inspiradores da agitação que conduziu Hitler ao poder na Alemanha.

Já nos anos 1920’s se tinham constituído as relações, o intercâmbio e a colaboração entre o Ku Klux Klan e a extrema direita alemã, para promover o racismo contra judeus, negros e outras pessoas não brancas. Em 1937, o ideólogo nazi Alfred Rosenberg exaltava os Estados Unidos como um “maravilhoso país do futuro”, que detinha o mérito de ter formulado a brilhante “ideia de um Estado racial”, uma ideia que devia ser posta em prática, “com um poder jovem” através da expulsão e deportação de “negros e amarelos”. [3]

Basta analisar as leis publicadas imediatamente após a chegada dos nazis ao poder para comprovar as semelhanças com a situação que então se vivia no sul dos Estados Unidos.

A posição dos alemães de origem judia na Alemanha correspondia obviamente à dos afro-norte-americanos no sul estadunidense. Hitler distinguia claramente, inclusive no âmbito jurídico, a posição dos arianos relativamente aos judeus e aos poucos mulatos que viviam na Alemanha. “A questão negra”, escrevia Rosenberg, “é o mais urgente de todos os assuntos decisivos nos Estados Unidos”; e uma vez que a noção de igualdade deixava de ser aplicada aos negros, também deixava de haver motivo para que não se extraíssem “as consequências necessárias para amarelos e judeus”. [4]

Nada disto pode surpreender. Desde que o fundamento do projeto nazi era a construção de um Estado racial, que outro modelo possível existia nessa época? Rosenberg mencionava a África do Sul, que devia permanecer solidamente em “mãos nórdicas e brancas”, e servia como um “sólido baluarte” diante da ameaça representada pelo “despertar negro”. Sem dúvida que, até certo ponto, Rosenberg sabia que a política segregacionista sul-africana era amplamente inspirada pelo sistema de supremacia branca surgido nos Estados Unidos.

Por outro lado, o objetivo de Hitler não consistia num expansionismo colonial tradicional, mas sim num império continental criado com a anexação e germanização de territórios vizinhos do Leste. A Alemanha era chamada a expandir-se para a Europa de Leste como se se tratasse do longínquo Oeste americano, tratando os “nativos” da mesma forma que os índios norte-americanos tinham sido tratados, sem perder de vista o modelo estadunidense, que o Führer exaltava pela sua “força interior sem precedentes”. [5]

Imediatamente após a invasão, Hitler procedeu ao desmembramento da Polônia: uma parte, da qual foram expulsos os polacos, foi diretamente incorporada no Grande Reich; o resto foi transformado em “Governo Geral” dentro do qual os polacos viviam “numa espécie de reserva”, como declara o Governador Geral Hans Frank, [6] o modelo norte-americano de liquidação da população originária foi seguido quase literalmente.

O ESTADO RACIAL NA ALEMANHA E NOS ESTADOS UNIDOS


O modelo norte-americano deixou uma profunda marca inclusive no âmbito das categorias e linguístico. O termo Untermensch (sub-homem), que desempenhou um papel tão central como destruidor na teoria e prática do Terceiro Reich, não era mais que uma tradução de Under Man. O nazi Rosenberg estava bem consciente desse fato e expressou a sua admiração pelo autor americano Lothrop Stoddard, inventor do termo, que aparece como subtítulo -- The Menace of the Under Man (A ameaça do sub-homem) de um livro publicado pela primeira vez em Nova York em 1922 e traduzido para o alemão (Die Drohung das Untermenschen) três anos mais tarde. Relativamente ao seu significado, Stoddard afirmava que servia para designar a massa de “selvagens e bárbaros essencialmente incivilizáveis e incorrigivelmente hostis à civilização”, que deviam ser tratados de modo radical para evitar o colapso desta. Já antes de ser elogiado por Rosenberg, Stoddard havia sido recomendado por dois presidentes norte-americanos (Harding y Hoover). Mais tarde foi recebido com honrarias em Berlim, onde se avistou com as mais altas autoridades do regime, incluindo Hitler, que já havia começado a sua campanha para dizimar e dominar os Untermenschen, os "nativos" da Europa de Leste.

Nos Estados Unidos da supremacia branca, assim como na Alemanha em poder do movimento nazi, o programa para restabelecer a hierarquia racial estava estreitamente vinculado a projectos de incentivo aos melhores para que procriassem, evitando assim o risco de “suicídio racial” (Rassenselbstmord) que pesava supostamente sobre os brancos.

Em 1918 Oswald Spengler dava a voz de alarme, citando o presidente estadunidense Theodore Roosevelt. [7] Decerto que a advertência de Roosevelt contra o espectro do “suicídio racial” ou a “humilhação racial” era acompanhada peIa denúncia da “diminuição da taxa de nascimentos nas raças superiores”, ou seja, “o antigo stock de norte-americanos nativos” ou seja os WASP (White, Anglo-Saxon Protestant). Também aqui as descobertas da investigação histórica são surpreendentes. Erbgesund heitslehre (educação para a saúde hereditária) ou Rassenhygiene (higiene racial), outra palavra-chave da ideologia nazi, não são mais que as traduções para alemão do termo eugenics (eugenia) a nova ciência consagrada ao aperfeiçoamento racial, inventada em Inglaterra durante a segunda metade do século XIX por Francis Galton.


Não é por acaso que esta nova ciência foi recebida tão favoravelmente nos Estados Unidos. Em vésperas da Primeira Guerra Mundial, muito antes da chegada de Hitler ao poder, publicou-se em Munique um livro intitulado Die Rassenhygiene in den Vereinigten Staaten von Nordamerika (A higiene racial nos Estados Unidos da América do Norte), que no próprio título assinala já os Estados Unidos como um modelo de “higiene racial”. O autor, Géza von Hoffmann, vice-cônsul do lmpério Austro-Húngaro em Chicago, exaltava a América do Norte peIa “lucidez” e “pura razão prática” demonstrada, ao afrontar com a energia necessária, um problema muito importante frequentemente ignorado: nos Estados Unidos violar as leis que proíbem as relações sexuais e o matrimônio inter-racial podia ser punido com dez anos de prisão. Não só podiam ser perseguidos e condenados os responsáveis por esses actos como também os seus cúmplices. [8]

Já depois do acesso dos nazis ao poder, os ideólogos e “cientistas” da raça continuavam insistindo:

“A Alemanha tem muito que aprender com as medidas adoptadas pelos norte-americanos: eles fazem o que deve ser feito”. [9]

Merece destaque o fato de ter aparecido nos Estados Unidos, muito antes do que na Alemanha, a noção de “solução final” a respeito da questão negra num livro publicado em Boston em 1913. [10] Ievada mais tarde a cabo pelos nazis, empregando o mesmo termo (EndIösung) para resolver a “questão judaica”.

O NAZISMO como projeto mundial de SUPREMACIA BRANCA

No decurso da sua história, os Estados Unidos tiveram de enfrentar diretamente os problemas resultantes do contacto entre diferentes “raças” e o afluxo de numerosos imigrantes procedentes de todo o mundo. Por outro lado, o violento movimento racista, que aí surgiu no final do século XIX, constituiu uma resposta à Guerra Civil e ao período de reconstrução que se lhe seguiu.

Durante os séculos XIX e XX, a Ku Klux Klan e os teóricos da “supremacia branca” acusavam os Estados Unidos posteriores à escravatura (com a sua maciça entrada de imigrantes procedentes dos países europeus menos desenvolvidos e do Oriente) de ser uma “civilização mestiça” ou um “gentio de cloaca”. De forma análoga, Hitler descrevia no Mein Kampf a sua Áustria natal como um caótico “conglomerado de povos”, uma “Babilônia de gente”, um “reino babilônico” dilacerado pelo “conflito racial”.

Segundo Hitler, a catástrofe era iminente na Áustria: a “eslavização” e a “desaparição do elemento germânico” progrediam, e o ocaso da raça superior que tinha colonizado e civilizado o Oriente estava próximo. A Alemanha, para onde Hitler (que era austríaco) foi viver, havia presenciado uma convulsão sem precedentes desde o final da Primeira Guerra Mundial, uma comoção comparável à que percorreu o Sul dos Estados Unidos depois da Guerra Civil.

Segundo a visão racista, mais grave ainda que a perda das suas colônias, era que a Alemanha se via obrigada a suportar a ocupação militar de tropas multirraciais das potências vencedoras e que parecia ter sido transformada numa “misturada racial”.

Este fantasma da proximidade do fim da civilização era reforçado pelo surgimento da Revolução de Outubro, apelando à rebelião dos povos colonizados. Esta revolução estalou e afirmou-se numa área habitada por povos tradicionalmente considerados à margem da civilização.

Assim como os partidários da abolição da escravatura foram assinalados no sul dos Estados Unidos como “amantes dos negros” e traidores à sua própria raça, os social-democratas e especialmente os comunistas eram considerados por Hitler como traidores à raça germânica e ocidental.

Em suma, o Terceiro Reich apresentava-se como uma tentativa para impedir, sob condições de guerra total e de guerra civil internacional, o suposto fim da civilização, o suicídio do Ocidente e da raça superior criando um regime de supremacia branca à escala mundial e sob hegemonia alemã.

De FORD a HITLER

Alguém se lembra do elogio do Ku Klux Klan ao “genuíno americanismo de Henry Ford”? Amplamente admirado, o magnata automobilístico condenava a Revolução Bolchevique acusando-a de ser, em primeiro lugar, o produto de uma conspiração judaica. Fundou até uma revista, a Dearborn Independent, cujos artigos publicados foram reunidos em 1920 num único volume intitulado O Judeu Internacional. O livro transformou-se imediatamente numa referência básica do anti-semitismo internacional, foi traduzido para alemão e adquiriu grande popularidade.


Nazis destacados, como Von Schirach e mesmo Himmler vieram mais tarde a reconhecer terem sido inspirados ou motivados por Ford. Segundo Himmler, o livro de Ford desempenhou um papel “decisivo” (ausschlaggebend) não só na sua formação pessoal, como também na do Führer.

Assista vídeo censurado em:

Também aqui se evidencia o caráter inconsistente de qualquer comparação esquemática entre a Europa e os Estados Unidos, como se a praga do anti-semitismo não afetasse ambos.

Em 1933 Spengler considerava necessário esclarecer este ponto: a fobia anti-judaica que confessava abertamente, não devia confundir-se com o racismo “materialista” típico “dos anti-semitas na Europa e na América”. [11]

O anti-semitismo biológico que se agitava impetuosamente no outro lado do Atlântico era considerado excessivo mesmo por um autor como Spengler, que se expressava sem qualquer pudor nos seus escritos, contra a cultura e a história judaicas. Por esta razão, entre outras, Spengler foi considerado tímido e inconsequente pelos nazis, cujas preferências se situavam noutro lado: O Judeu Internacional continuou a ser publicado com todas as vênias no Terceiro Reich, e com editoriais que enfatizavam o singular mérito histórico do seu autor (por haver trazido à luz a “questão judaica”), estabelecendo uma linha de continuidade entre Henry Ford e Adolfo Hitler.

O Ocidente e a “Democracia do Povo Dominante”

É oportuno destacar o paradoxo que caracterizou os Estados Unidos desde a sua fundação, sintetizada no século XVIII pelo escritor britânico Samuel Johnson:

Como poderemos suportar os estridentes gritos de liberdade dos proprietários de escravos?” [12]

A democracia desenvolveu-se na América do Norte no seio da comunidade branca simultaneamente com a escravização dos negros e a deportação dos índios.

Em 22 dos primeiros 36 anos como nação independente, a presidência esteve nas mãos de proprietários de escravos. Também eram proprietários de escravos os que redigiram a Declaração de Independência e a Constituição. Sem escravatura (mais a correspondente segregação racial) não se pode entender a “liberdade americana”: as duas estavam vinculadas, sustentando-se uma à outra. Enquanto a escravatura assegurava o firme controle sobre as classes “perigosas” no âmbito da produção, a expansão para o Oeste servia para desactivar o conflito social, transformando o proletariado potencial numa classe de proprietários agrícolas, ainda que a expensas dos povos originários, que seriam expulsos ou aniquilados.

Depois da Guerra da Independência, a democracia norte-americana experimenta novos desenvolvimentos durante a presidência de Jackson na década de 1830: a extensão do sufrágio e a eliminação, em grande parte, das restrições relacionadas com a propriedade na comunidade branca, eram concomitantes com a rigorosa deportação dos índios norte-americanos e com o crescente ressentimento e violência contra os negros.

O mesmo se pode dizer do período compreendido entre o final do século XIX e a metade da segunda década do século XX, onde se combinaram reformas como a instauração da eleição direta dos membros do Senado, o voto secreto, a introdução de eleições primárias e de instituições de referendo, etc. com fatos sobremaneira trágicos para a população negra (alvo dos esquadrões do terror da Ku Klux Klan) e a expulsão dos índios norte-americanos dos seus últimos territórios e a sua submissão a uma brutal aculturação, com a intenção de os despojar, inclusive, da sua identidade cultural.

Relativamente a este paradoxo, numerosos intelectuais norte-americanos se referiram a uma Herrenvolk democracy, ou seja uma democracia apenas para “Senhores” (para usar uma expressão do tipo das que Hitler apreciava).

Na realidade, a categoria “democracia do povo dominante” pode ser útil para explicar a história do Ocidente como um todo. Desde o final do século XIX e nos princípios do século XX, a extensão do sufrágio na Europa marcha pari passu com a colonização e a imposição de relações laborais de servidão e semi-servidão aos povos submetidos.

Os governos democráticos na Europa estavam fortemente entrelaçados com o poder da burocracia, com a violência policial e o estado de sítio nas colônias. Em última análise, trata-se do mesmo fenômeno que ocorria nos Estados Unidos, com a diferença que na Europa era menos evidente porque os povos colonizados viviam do outro lado do oceano.

Missão Imperial e Fundamentalismo Cristão

Em 1899, a revista Christian Oracle explicava assim a decisão de mudar o seu título para Christian Century: "Cremos que o próximo século será testemunha de triunfos do cristianismo jamais vistos, e que será mais verdadeiramente cristão que qualquer dos precedentes".

William McKinley
Mais adiante o presidente McKinley explicava que a decisão de anexar as Filipinas procedia da inspiração do “Todo Poderoso” que, depois de escutar as incessantes preces do presidente, numa noite de insônia, o tinha por fim, libertado de toda a dúvida e indecisão. Não teria sido adequado deixar a colônia nas mãos da Espanha, ou entregá-la “à França ou à Alemanha, nossos rivais no comércio do Oriente”. Nem, peIa mesma razão, teria sido correto deixar as Filipinas aos próprios filipinos, que eram “incapazes de se autogovernar”, o que teria levado o país a um estado de “anarquia e desgoverno” ainda pior que o resultante da dominação espanhola:

“Não temos outra alternativa senão tomarmos tudo a nosso cargo, e educar os filipinos, civilizá-los e cristianizá-los, e, peia graça de Deus, fazer o mais que pudermos por eles, como companheiros nossos por quem Cristo também morreu. Voltei então para a cama e dormi profundamente”. [13]

Hoje conhecemos os horrores perpetrados durante a repressão do movimento independentista nas Filipinas: a guerrilha desenvolvida pelos filipinos foi enfrentada com a destruição sistemática de campos e gados, pelo confinamento maciço da população em campos de concentração, onde pereciam vítimas da fome e da doença, e inclusive em alguns casos, do assassinato de todos os varões maiores de dez anos.

Sem dúvida que, apesar das dimensões dos “danos colaterais”, a marcha da ideologia imperial-religiosa da guerra se reactivou triunfalmente durante a Primeira Guerra Mundial, quando o presidente Wilson a eIa se referia como se se tratasse de uma cruzada real, de uma “guerra santa, a mais sagrada em toda a história”, destinada a impor a democracia e os valores cristãos em todo o mundo.

John Foster Dulles
A mesma plataforma ideológica foi aplicada a outros conflitos no século XX, sendo a Guerra Fria particularmente exemplar neste aspecto. John Foster Dulles, era definido por Churchill como “um severo puritano”.

Dulles orgulhava-se de que “ninguém no Departamento de Estado conhece a Bíblia como eu”. O seu fervor religioso não era de modo nenhum um assunto privado:

“Estou convencido que aqui temos a necessidade de fazer que os nossos pensamentos e práticas políticas reflitam com a maior fidelidade a convicção religiosa de que o homem tem a sua origem e destino em Deus”. [14]

A esta fé, associavam-se outras categorias teológicas fundamentais na luta política internacional: os países neutrais que recusavam tomar parte na cruzada contra a União Soviética estavam em “pecado”, enquanto que os Estados Unidos, à cabeça dessa cruzada, representavam o “povo moral” por definição.

Em 1983, Ronald Reagan, quando a Guerra Fria atingia o seu clímax, apontou a necessidade de derrotar o inimigo ateu (a URSS), com claros acentos teológicos:

“Há no mundo pecado e maldade, e as Escrituras e Jesus nosso senhor ordenaram-nos que nos oponhamos a isso com todo o nosso pode”. [15]

Alinhando-se com esta tradição e radicalizando-a ainda mais, George W. Bush conduziu a sua campanha eleitoral sob um autêntico dogma:

“A nossa nação é a eleita de Deus e foi escolhida peIa História como um modelo de justiça para o mundo”.

A história dos Estados Unidos está marcada pela tendência a transformar a tradição judaico-cristã numa espécie de religião nacional que consagra o excepcionalismo do povo norte-americano e a missão sagrada que lhe foi confiada. Não é este entrelaçamento de religião e política sinônimo de fundamentalismo? Não foi por acaso que o termo fundamentalismo foi utilizado pela primeira vez no âmbito do protestantismo norte-americano.

Certamente que qualquer administração norte-americana terá os seus hipócritas, os seus intriguistas e os seus cínicos; mas não há motivos para duvidar da sinceridade de Wilson ou, atualmente, de Bush Jr.

Não devemos esquecer o fato de que os Estados Unidos não são uma verdadeira sociedade secular, a arraigada convicção de representar uma causa sagrada e divina facilita não só a constituição de uma frente unida em tempos de crise, mas também a repressão e banalização das páginas mais obscuras da história estadunidense.

Durante a Guerra Fria, Washington patrocinou sangrentos golpes de Estado na América Latina e colocou no poder brutais ditadores militares; em 1965, promoveu na Indonésia o massacre de centenas de milhares de comunistas ou seus simpatizantes. No entanto, por mais desagradáveis que possam ser, esses detalhes não alteram a santidade da causa personificada pelo “Império do Bem”.

Max Weber costumava referir-se à “moralina” (farisaísmo) norte-americana. "Moralina" não significa mentira, nem hipocrisia consciente. É tão só a hipocrisia dos que são capazes de mentir a si mesmos, o que se assemelha à falsa consciência assinalada por Engels.

De todo o modo, não é fácil compreender totalmente essa mescla de fervor religioso e moral, por um lado, e a clara e aberta tentativa de domínio político, econômico e militar do mundo, por outra.

É sem dúvida, esta amálgama (combinação explosiva), este peculiar fundamentalismo, que constitui atualmente a grande ameaça à paz mundial.

O fundamentalismo norte-americano intoxica um país que, designado e autorizado por Deus, considera irrelevantes a ordem internacional atual e as regras humanitárias.

É neste quadro que devemos situar a deslegitimação das Nações Unidas, o desprezo pela Convenção de Genebra e as ameaças proferidas não só contra os seus inimigos, como também contra os seus “aliados” na OTAN.

O Despotismo Imperial

Além de combater o “mal” e defender os valores cristãos e norte-americanos, a guerra contra o Iraque (não contando com outras guerras em perspectiva) pretende expandir a democracia por todo o mundo.

Retomemos por um momento o jovem indochinês que em 1924 denunciava o linchamento de negros. Mais tarde regressou ao seu país e aí adotou o nome pelo qual seria mundialmente conhecido: Ho Chi Minh.

Durante os incessantes bombardeios norte-americanos no Vietnam, terá o dirigente vietnamita recordado os horrores perpetrados contra os negros pelos defensores da supremacia branca?

Por outras palavras, a emancipação dos afro-norte-americanos e sua conquista dos direitos civis marcaram realmente uma mudança, ou continuam os Estados Unidos a ser uma Herrenvolk democracy, uma democracia de “Senhores”, com a diferença de que agora os excluídos já não são os que estão dentro da mãe pátria, mas antes os que estão fora, como aconteceu no caso da “democracia” europeia?

Podemos examinar a questão numa perspectiva diferente, considerando a reflexão de Kant:

“Que é um monarca absoluto? É aquele que quando decide que deve haver guerra, há guerra”.

Kant não se referia aos Estados do Antigo Regime, mas sim à Inglaterra, no limiar do seu século de desenvolvimento liberal. [16]

De acordo com a posição kantiana, o atual presidente dos Estados Unidos deveria ser considerado um déspota por dois motivos.

Primeiro, devido ao surgimento, na última década, de uma “presidência imperial” que, quando embarca em ações militares, as apresenta frequentemente ao Congresso como um fato consumado. Mas estamos ainda mais interessados no segundo aspecto: é a Casa Branca que soberanamente determina quando as resoluções das Nações Unidas são vinculativas ou não; é a Casa Branca que soberanamente decide que países são “Estados delinquentes” e se é legal submete-los a embargos que irão causar o sofrimento de toda uma população, ou ao fogo infernal de bombas de fragmentação ou de urânio empobrecido.

Soldados dos EUA em foto no Afeganistão com bandeira nazista
A Casa Branca decide soberanamente a ocupação militar desses países, pelo tempo que considerar necessário, condenando os seus dirigentes e os seus “cúmplices” a prolongadas penas de prisão. Contra estes e contra os “terroristas”, chega a ser legitimado o “assassinato seletivo”, ou melhor, um assassinato que é tudo menos seletivo, como o bombardeamento de um restaurante porque se pensava que Saddam Hussein pudesse lá estar. As garantias legais não se aplicam de todo aos “bárbaros”.

A tudo isto se junta a crescente intolerância que Washington manifesta para com os seus “aliados” ocidentais. Também a eles exige que sigam com humildade a vontade da nação eleita por Deus, cujo presidente se comporta como se fosse um soberano mundial, sem o controle de qualquer organismo internacional.

Notas de rodapé

1. Wade, Wyn Craig. 1997. The Rery Cross: The Ku Klux Klan in America. New York and Oxford: Oxford University Press.
2. MacLean, Nancy. 1994. Behind the Mask 01 Chivalry: The Making of the Second Ku Klux Klan. New York and Oxford: Oxford University Press.
3. Rosenberg, Alfred. 1937. Der Mythus des 20. Jahrhunderts. Munich: Hoheneichen. Publicado pela primeira vez em 1930.
4. lbid.
5. Hitler, Adolf. 1939. Mein Kampf. Munich: Zentralverlag der NSDAP. Publicado pela primeira vez em 1925.
6. Ruge, Wolfgang, and Wolfgang Schumann (eds.). 1977. Dokumentezurdeutschen Geschichte. 1939-1942. Frankfurt a. M.: Radelberg.
7. Spengler, Oswald. 1933. Jahre der Entsche idung. Munich: Beck. 1980. Der Untergang des Abendlandes. Munich: Beck. Original 1918-23.
8. Hoffrnann, Géza voo. 1913. Die Rassenhygiene in den Vel'9inigt9n Staaten von Nordamerika. Munich: Lehmanns.
9. Günther, Hans S. R. 1934. Rassenkunde des deutschen Volkes. Munich: Lehmanns. Publicado pela primeira vez em 1922.
10. Fredrickson, George M. J. The Black Image in the White Mind: The Debate on Afro-American Character and Destiny, 1817-1914. Hanover, N.H.: Wesleyan University Press. Publicado pela primeira vez em 1971.
11. Spengler, op.cit.
12. Foner, Erich. 1998. The History of American Freedom. London: Picador.
13. McAllister Uno, Brian. 1989. The U. S. Army and Counterinsurgency in the Philippine War, 1899-1902. Chapel HiII and London: University of North Carolina Press.
14. Kissinger, Henry. 1994. Diplomacy. New York: Simon and Schuster.
15. Draper, Theodore. 1994. "Mission Impossible". New York Review of Books (6 October).
16. Kant, Immanuel. 1900. "Der Streit der Fakultaten". In Gesammelte Schriften. vai. 7. Berlin and Leipzig: Akademie-Ausgabe. Publicado pela primeira vez em 1798.

[*] Investigador do Istituto di Science Filosofiche e Pedagogiche, Urbino, Itália.

O artigo original encontra-se em na revista argentina Enfoques Alternativos, nº 27, Out-Nov/2004.
Tradução de Carlos Coutinho.
Este artigo foi extraído de Resistir

Islândia: O país que disse não aos banqueiros

Não pode pagar, não vai pagar

O ‘não’ em alto e bom som da Islândia

Pela segunda vez, o povo da Islândia votou por não pagar as dívidas internacionais causadas pelos bancos, e banqueiros, pelas quais toda a ilha está sendo responsabilizada. Com a presente turbulência nas capitais europeias, poderia ser este o caminho a seguir pelas outras economias?

por Silla Sigurgeirsdóttir e Robert H Wade, na versão em inglês do Le Monde Diplomatique*

Tradução: Pedro Germano Leal**

A pequena ilha da Islândia tem lições para dar ao mundo. Ela realizou um referendo em abril para decidir, mais ou menos, se as pessoas comuns deveriam pagar pela folia dos banqueiros (e por extensão, se os governos podem controlar o setor corporativo, já que suas finanças dependem dele). Sessenta por cento da população rejeitaram um acordo negociado entre a Islândia, a Holanda e o Reino Unido para pagar de volta aos governos britânico e holandês o dinheiro que gastaram para compensar correntistas do banco Icesave, que faliu. Houve menos resistência do que no primeiro referendo, na primavera passada [N.T. no Brasil, outono], quando 93% votaram não.

O referendo foi significativo, uma vez que os governos europeus, pressionados por especuladores, o FMI e a Comissão Europeia, estão impondo políticas de austeridade, as quais não foram votadas por seus cidadãos. Mesmo os devotos da desregulamentação estão preocupados com o grau de servidão que o mundo ocidental tem para com instituições financeiras que não sofrem qualquer constrangimento. Após o referendo islandês, mesmo o Financial Times, que é liberal, noticiou com ares de aprovação, em 13 de abril, ter sido possível “colocar os cidadãos em primeiro lugar, ao invés dos bancos”, uma ideia que não encontra ressonância entre os líderes políticos europeus.

A Islândia é um exemplo excepcionalmente puro da dinâmica que bloqueou a regulamentação e causou a fragilidade financeira no mundo desenvolvido por 20 anos. Em 2007, pouco antes da crise financeira, a renda média da Islândia foi a quinta mais alta do mundo, 60% acima dos níveis dos EUA; lojas de Reykjavik foram recheadas com produtos de luxo, seus restaurantes fizeram Londres parecer barata, e SUVs sufocaram suas ruas estreitas. Os islandeses foram as pessoas mais felizes do mundo de acordo com um estudo internacional realizado em 2006 (1). Grande parte deste fenômeno residiu no crescimento super-rápido de três bancos islandeses, que saltaram de instituições de pequeno porte em 1998 para estar entre os 300 maiores bancos do mundo, oito anos depois, aumentando os seus ativos de 100% do PIB em 2000 para quase 800% em 2007 – uma proporção superada apenas pela Suiça.

A crise chegou em setembro de 2008, quando os mercados monetários foram tomados após o colapso do Lehman. Em uma semana, três grandes bancos da Islândia entraram em colapso e se tornaram propriedade pública. A agência de classificação Moody’s agora lista-os entre os 11 maiores colapsos financeiros da história.

A caminho da modernização

Depois de mais de 600 anos de dominação estrangeira, a estrutura social da Islândia era a mais feudal de todos os países nórdicos no início do século 20. A pesca dominava a economia, gerando a maior parte dos ganhos em moeda estrangeira e permitindo o desenvolvimento de um setor comercial baseado em importação. Isso viabilizou atividades econômicas urbanas: construção, serviços, indústria leve. Após a Segunda Guerra Mundial, a economia cresceu fortemente, por causa da ajuda do Plano Marshall (havia na Islândia uma grande base militar dos EUA-OTAN); de um produto de exportação abundante, peixes de água fria, raramente abençoado com alta elasticidade-renda da demanda; e de uma pequena população, alfabetizada, com um forte senso de identidade nacional.

Conforme a Islândia tornou-se mais próspera, ela estabeleceu um estado de bem-estar social, de acordo com o modelo escandinavo, financiado por impostos, e pela década de 1980 havia atingido um nível e uma distribuição de renda iguais à média nórdica. No entanto, manteve-se tanto mais regulada quanto mais dominada por clientelismo do que seus vizinhos europeus; um oligopólio local restringiu o panorama político e econômico.

Há uma linha de descendência direta entre as estruturas de poder quase-feudais do século XIX e o capitalismo islandês modernizado do final do século XX, quando um bloco de 14 famílias, popularmente conhecido como “O Polvo”, constituía a elite econômica e política dominante. “O Polvo” controlava as importações, transportes, bancos, seguros, pesca e suprimentos para a base da OTAN, e fornecia a maioria dos políticos de primeiro escalão. As famílias viviam como chefes de clãs.

“O Polvo” controlava o Partido da Independência (IP), de direita, que dominou a mídia e decidiu sobre nomeações de altos funcionários no serviço civil, policial e judicial. Os bancos estatais locais foram efetivamente comandados pelos partidos dominantes, o IP e o Partido do Centro ou CP (2). Pessoas comuns tinham que passar por funcionários do partido para obter empréstimos para comprar um carro, ou para comprar moeda estrangeira para viajar para o exterior. As redes de poder operavam como teias de bullying, servilismo e desconfiança, impregnadas de uma cultura machista, algo como a antiga União Soviética.

Esta ordem tradicional foi desafiada a partir de dentro por uma facção neoliberal, o grupo “Locomotiva”, que se uniu no início da década de 1970, após estudantes de administração e direito da Universidade da Islândia tomarem um jornal, A Locomotiva, e promoverem idéias de livre mercado. O objetivo deles não era apenas transformar a sociedade, mas também abrir oportunidades de carreira para si mesmos, ao invés de esperar pelo patrocínio do “Polvo”. No final da guerra fria, a posição do “Locomotiva” foi reforçada material e ideologicamente, conforme os comunistas e os social-democratas perdiam o apoio popular. O futuro primeiro-ministro do IP, David Oddsson, era um membro proeminente.

Oddsson, nascido em 1948 em uma família de classe média, foi eleito vereador pelo IP para o conselho municipal de Reykjavik, em 1974; por volta de 1982, ele foi prefeito de Reykjavik, conduzindo campanhas de privatização, incluindo a venda da indústria municipal de pesca, para o benefício de membros do grupo “Locomotiva”. Em 1991, ele liderou o IP para a vitória na eleição geral, e reinou (não, não é uma palavra muito forte) como primeiro-ministro por 14 anos, supervisionando o crescimento do setor financeiro, antes de instalar-se como diretor do Banco Central, em 2004.

Ele tinha pouca experiência ou interesse no mundo além da Islândia. Seu protégé no grupo “Locomotiva”, Geir Haarde, ministro da Fazenda de 1998 a 2005, assumiu como primeiro-ministro pouco depois. Estes dois homens foram diretamente responsáveis por realizar o grande experimento da Islândia para criar um centro financeiro internacional no Atlântico Norte, no meio do caminho entre a Europa e os Estados Unidos.

A Islândia liberaliza

A liberalização da economia começou em 1994 quando, aderindo ao Espaço Econômico Europeu, o bloco de livre comércio dos países da UE, mais a Islândia, Lichtenstein e Noruega, suspenderam as restrições sobre os fluxos transfronteiriços de capitais, mercadorias, serviços e pessoas. O governo Oddsson, em seguida, vendeu ativos estatais e desregulamentou as leis trabalhistas. A privatização começou em 1998, implementada por Oddsson e Halldór Ásgrímsson, o líder do CP. Quanto aos bancos, o Landsbanki foi entregue a grandes nomes do IP; o Kaupthing, a seus equivalentes no CP, seu parceiro de coligação; licitantes estrangeiros foram excluídos. Mais tarde, o Glitnir, um banco privado formado a partir da fusão de vários outros menores, juntou-se à liga.

Assim, a Islândia rugiu nas finanças internacionais ajudada, globalmente, pelo crédito barato e abundante, e a livre mobilidade do capital; e, internamente, por um forte apoio político aos bancos. Os novos bancos fundiram banco de investimento com banco comercial, de modo que ambos compartilhavam garantias do governo. E o país tinha uma dívida soberana baixa, o que garantiu aos bancos notas altas das agências internacionais de classificação de risco. Os principais acionistas do Landsbanki, do Kaupthing, do Glitnir e seus spin-offs inverteram a dominação da política sobre as finanças, antes vigente: as políticas do governo eram agora subordinadas aos interesses das finanças.

Oddsson e seus amigos relaxaram as regras estatais de hipoteca, permitindo empréstimos de 90%. Os bancos recentemente privatizados correram para oferecer condições ainda mais generosas. O imposto de renda e as taxas de VAT [‘imposto sobre valor agregado’, IVA] foram reduzidos para transformar a Islândia em um centro financeiro internacional com baixos impostos. A dinâmica da bolha tomou seu lugar. Gestores urbanos buscaram mudar a trajetória de Reykjavik, de uma cidade comum, para uma cidade do mundo (apesar de sua pequena população de 110 mil habitantes) e aprovaram vários novos e grandiosos edifícios públicos e privados, dizendo: “Se Dubai pode, por que não Reykjavik?”

A nova elite bancária da Islândia tinha a intenção de expandir seu controle sobre a economia, competindo e cooperando uns com os outros. Usando suas ações como garantia, alguns assumiram grandes empréstimos de seus próprios bancos, e compraram mais ações dos mesmos bancos, inflando os preços das ações. Funcionava assim: o Banco A emprestava aos acionistas do Banco B, que compravam mais ações do B usando ações como garantia, elevando o valor das ações de B. O Banco B retornava o favor. Os preços das ações dos dois bancos subiam, sem que qualquer dinheiro novo entrasse no esquema. Os bancos não tornaram-se apenas maiores: eles cresceram mais e mais interligados. Vários negócios deste tipo estão agora sob investigação criminal por um promotor especial, como casos de manipulação do mercado.

A pequena Islândia logo conseguiu entrar na liga dos grandes bancos, com três bancos entre os 300 maiores do mundo até 2006. A superabundância de crédito permitiu que as pessoas consumissem, em uma celebração extravagante de sua fuga das décadas anteriores, de racionamento de crédito (que por sua vez repousava em outra fuga, a da dominação estrangeira, tão recentemente quanto 1944). No fim das contas, os islandeses se viam como totalmente independentes, o que pode explicar sua classificação no ranking da felicidade. Os proprietários e gerentes remuneravam-se em uma escala cada vez maior. Quanto mais ricos se tornassem, mais atraíram o apoio político.

Seus jatos particulares, rugindo para dentro e fora do aeroporto de Reykjavik, pareciam ser uma prova visual e auditiva para a população que os via de baixo, parte admirando-os, parte invejando-os. A desigualdade de renda e riqueza cresceu, ajudada por políticas governamentais que aumentaram a carga tributária da população mais pobre (3). Os banqueiros fizeram grandes contribuições financeiras para os partidos do governo e empréstimos gigantescos para políticos-chave. O principal porta-voz islandês da economia de livre mercado declarou ao The Wall Street Journal: “O experimento Oddsson com as políticas liberais é a maior história de sucesso no mundo” (4).

Na euforia, os perigos de uma estratégia de “crescimento econômico baseado em vasto endividamento externo” foram ignorados. Os islandeses viveram o ditado de Plauto, dramaturgo romano do terceiro século a.C., que fez um de seus personagens declarar: “Eu sou um homem rico, enquanto eu não pagar meus credores.”

A mini-crise de 2006

Em 2006, havia preocupações na imprensa financeira sobre a estabilidade dos grandes bancos, que estavam começando a ter problemas em captar recursos nos mercados monetários (dos quais seu modelo de negócio dependia). O déficit em conta corrente da Islândia havia disparado, de 5% do PIB em 2003, para 20% em 2006, um dos mais altos do mundo. O mercado de ações multiplicou-se nove vezes entre 2001 e 2007.

O Landsbanki, o Glitnir e o Kaupthing estavam operando muito além da capacidade do Banco Central da Islândia de apoiá-los como garantidor de último recurso; suas responsabilidades eram reais, mas muitos de seus ativos foram duvidosos. Em fevereiro de 2006, a agência de classificação Fitch rebaixou as perspectivas da Islândia de estável para negativa e desencadeou a “mini-crise” de 2006: a krona [N.T. ‘coroa islandesa’, moeda corrente da Islândia] caiu drasticamente, o valor dos passivos dos bancos em moeda estrangeira subiu, o mercado de ações caiu, a insolvência aumentou, e a sustentabilidade de dívidas em moeda estrangeira tornou-se um problema público. O banco Danske de Copenhagen descreveu a Islândia como uma “economia geyser”, a ponto de explodir (5).

Os banqueiros e os políticos islandeses desprezaram a crise. O Banco Central da Islândia pegou um empréstimo para dobrar as reservas cambiais, enquanto a Câmara de Comércio, administrada por representantes do Landsbanki, do Kaupthing, do Glitnir e seus spin-offs, respondeu com uma campanha de relações públicas. Ela pagou ao economista monetário americano Frederic Mishkin U$135.000 para emprestar seu nome a um relatório atestando a estabilidade dos bancos da Islândia.

Supostamente pagou ao economista Richard Portes £58.000 (U$95.000), da London Business School, para fazer o mesmo por um relatório mais tarde. Em 2007, o economista pelo lado da oferta, Arthur Laffer, assegurou à comunidade empresarial islandesa que o crescimento econômico rápido, com um grande déficit comercial e o crescimento da dívida externa eram sinais de sucesso: “A Islândia deve ser um modelo para o mundo” (6). O valor dos “ativos” dos bancos era, então, cerca de oito vezes maior que o PIB da Islândia.

Nas eleições de maio de 2007, a Aliança Social Democrática (SDA) entrou em um governo de coalizão com o IP, ainda dominante. Para o constrangimento de muitos dos apoiadores da SDA, líderes do partido abandonaram suas promessas pré-eleitorais e endossaram a contínua expansão do setor financeiro.

Apesar de terem sobrevivido a 2006, o Landsbanki, o Glitnir e o Kaupthing tinham dificuldades em levantar dinheiro para financiar suas compras de ativos e pagar as dívidas existentes, em grande parte denominadas em moedas estrangeiras. Então, o Landsbanki criou algo novo com o Icesave, um serviço online que visava ganhar depósitos de poupança em varejo, oferecendo taxas de juros mais atraentes do que os bancos tradicionais.

Fundado na Inglaterra em outubro de 2006, e na Holanda 18 meses depois, o Icesave chamou a atenção de sites de finanças, especializados em ofertas pela internet, e logo foi inundado com depósitos. Milhões de libras vieram da Universidade de Cambridge, da Autoridade Geral da Polícia Metropolitana de Londres, e mesmo da Comissão de Auditoria do Reino Unido, responsável pela supervisão de fundos do governo local, bem como dos 300 mil depositantes do Icesave só no Reino Unido.

As entidades do Icesave foram legalmente estabelecidas como filiais, ao invés de subsidiárias, então elas estavam sob a supervisão de autoridades islandesas, ao invés daquelas dos países onde se instalavam. Ninguém percebeu que a agência reguladora islandesa tinha uma equipe total, incluindo recepcionista, de apenas 45 pessoas, e que sofreu uma alta rotatividade já que muitos passaram a trabalhar para os bancos, que ofereciam melhor remuneração.

Ninguém se importava com isso, já que de acordo com as obrigações da Islândia como membro do Fundo de Garantia de Depósito do Espaço Econômico Europeu, a sua população de 320.000 seria responsável pela indenização dos depositantes no exterior em caso de falha. Acionistas do Landsbanki colheram os lucros de curto prazo enquanto a maioria dos islandeses não sabia absolutamente nada sobre o Icesave.

Cartas de amor

A segunda “solução” para as dificuldades em levantar novos fundos foi uma maneira de obter mais acesso à liquidez sem oferecer ativos reais como garantia. Os Três Grandes venderam títulos da dívida a um banco regional menor, o que levou estes títulos ao Banco Central, e tomavam empréstimos contra eles, sem ter que fornecer garantias adicionais; eles então emprestavam de volta para o banco em questão. Os títulos foram chamados de “cartas de amor” — meras promessas. Ao participar deste jogo e aceitando como garantia reclamações sobre outros bancos islandeses, o Banco Central foi conivente na estratégia dos bancos de jogar para conseguir a ressurreição.

Então os bancos internacionalizaram o processo: os Três Grandes abriram subsidiárias com sede em Luxemburgo e venderam cartas de amor para elas [as subsidiárias]. As subsidiárias vendiam por sua vez ao Banco Central de Luxemburgo ou ao Banco Central Europeu e recebiam dinheiro vivo em troca, que poderiam passar de volta para o banco-sede na Islândia ou usar elas mesmas. A Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE) calcula que apenas as cartas de amor domésticas, entre o Banco Central da Islândia e os bancos islandeses, causou prejuízos ao BCI e ao Tesouro de 13% do PIB (OECD Economic Surveys: Islândia, junho de 2011).

Colapso financeiro

Os bancos islandeses desabaram duas semanas depois do Lehman Brothers. Em 29 de setembro de 2008, o Glitnir aproximou-se de Oddsson no Banco Central para ajudar no combate ao problema de liquidez que estava a caminho. Para restaurar a confiança, Oddsson instruiu o Banco Central a comprar 75% das ações do Glitnir. O resultado disso não impulsionou o Glitnir, mas, ao contrário, minou a confiança na Islândia.

A classificação de risco do país afundou, e linhas de crédito foram retiradas do Landsbanki e do Kaupthing. Deu-se início a uma corrida às agências do Icesave no exterior. Oddsson adiantou-se, em 7 de outubro de 2008, e buscou indexar a krona [coroa islandesa] a uma cesta de moedas com um valor próximo ao período pré-crise. Com a moeda caindo e na ausência de controles de capital, as reservas cambiais foram exauridas: a indexação durou só algumas horas, tempo suficiente apenas para que aqueles a par da situação trocassem suas kronas por outras moedas com uma taxa muito mais favorável.

Fontes internas indicam que bilhões deixaram a moeda nessas horas. Em seguida, a krona flutuou, e afundou. Em 8 de outubro, o então primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, congelou os ativos do Landsbanki no Reino Unido com o apoio legal das leis anti-terrorismo. O mercado de ações, títulos bancários, valores imobiliários e o rendimento médio entraram em queda-livre.

O FMI chegou a Reykjavik em outubro de 2008 para preparar um programa de gestão de crise. Esta foi a primeira vez que o FMI havia sido chamado para resgatar uma economia desenvolvida desde a Grã-Bretanha, em 1976. Ele ofereceu um empréstimo condicional de 2,1 bilhões de dólares para estabilizar a krona e apoiou as demandas dos governos britânico e holandês de que a Islândia deveria honrar suas obrigações junto ao Fundo de Garantia de Depósito Europeu e recompensá-los por suas operações de resgate aos depositantes do Icesave.

A população normalmente calma da Islândia entrou em erupção em um irado movimento de protesto, dirigido principalmente contra Haarde, Oddsson e IP, embora a ministra das relações exteriores Ingibjörg Gísladóttir, da SDA, também tenha sido foi considerada culpada. Milhares de pessoas reunidas na principal praça de Reykjavik – nas tardes congelantes de sábado entre outubro de 2008 e janeiro de 2009 – bateram panelas e abraçaram o edifício do parlamento para exigir a renúncia do governo, e alvejaram o prédio com comida.

Em janeiro de 2009, a coalizão IP-SDA se rompeu. Até agora, a Islândia é o único país a ter mudado claramente para a esquerda após a crise financeira. Um governo interino SDA-LGM (Social Democratas-Movimento Verde de Esquerda) foi formado em janeiro de 2009 para conduzir o país até as eleições em abril. Nas eleições, as cadeiras do IP foram reduzidas a 16. Apesar do favorecimento esmagador do sistema eleitoral em seu favor, este foi o pior resultado do IP desde a sua formação em 1929.

A rejeição da dívida do Icesave

O governo SDA-LGM veio à luz sofrendo uma pressão imediata para que pagasse a dívida do resgate do Icesave; grande parte do empréstimo do FMI foi retida até que Reykjavik concordasse em pagar. O novo governo também se dividiu sobre a possibilidade de se candidatar a membro pleno da União Europeia e da Zona do Euro, com maioria SDA fortemente a favor. Em outubro de 2009, após longas negociações, o governo apresentou ao parlamento a proposta a que tinha chegado em relação à dívida do Icesave: 5,5 bilhões de libras esterlinas (7,8 bilhões de dólares), ou 50% do PIB da Islândia, seriam pagas aos cofres britânicos e holandeses entre 2016 e 2023.

Em protesto, o ministro da Saúde renunciou e cinco dissidentes se recusaram a votar com o governo. O projeto de lei foi aprovado forçadamente no dia 30 de dezembro de 2009, contra a vontade da população. Em 5 de Janeiro de 2010, o Presidente Grímsson anunciou que não iria assinar a lei, por respeito à vontade da população. No referendo que se seguiu, o projeto de lei foi decisivamente rejeitado.

Nas eleições municipais Reykjavik, em maio de 2010, a SDA caiu para 19% e um comediante foi eleito prefeito da cidade. Em outubro, os protestos recomeçaram, e a coalizão concordou em realizar eleições para uma assembleia constituinte com o objetivo de elaborar uma nova constituição (a então existente fora herdada da Dinamarca na época da independência da Islândia, em 1944). Quando a eleição foi invalidada pela Suprema Corte, a assembleia foi reconvocada como um conselho constitucional nomeado pelo parlamento.

O acordo na mesa neste segundo referendo sobre o Icesave, em abril, envolveu concessões substanciais por parte dos governos britânico e holandês. Após a votação pelo ‘não’, o desacordo pode ter que ir aos tribunais internacionais.

A crise adiada

O custo das perdas em empréstimos e garantias, adicionado ao custo da reestruturação das organizações financeiras, traz o total de custos diretos da crise fiscal para cerca de 20% do PIB – maior do que em qualquer outro país com exceção da Irlanda (OECD Economic Surveys, Islândia, junho de 2011). Mas o adiamento de grandes cortes nos gastos públicos até este ano deu à economia um tempo para respirar, e a forte desvalorização ajudou a gerar um superávit comercial pela primeira vez em muitos anos.

Até agora, a Islândia sofreu quedas no PIB e nas taxas de emprego menores que países com grandes cortes em gastos públicos, tais como a Irlanda, Estônia e Lituânia. A taxa de desemprego, de apenas 2% em 2006, tem oscilado entre 7% e 9% desde 2009, mas a taxa de emigração, de islandeses e outros trabalhadores europeus (predominantemente poloneses), foi a maior desde 1889. No entanto, o governo SDA-LGM anunciou cortes drásticos nos gastos públicos para 2011 e além. Governos locais não têm orçamento para novos projetos. Hospitais e escolas estão cortando salários e demitindo funcionários. O congelamento das ações de despejo expirou em 2010.

Finanças no volante

A decisão do governo IP-SDA de fornecer garantias ilimitadas de depósitos bancários ilustra a sua dívida para com a elite financeira. Se tivesse limitado a garantia a 50 milhões de kronas (70 mil dólares), ele teria protegido os depósitos de 95% dos depositantes. Apenas os 5% mais ricos, incluindo muitos políticos, beneficiaram-se da garantia ilimitada, o que significa agora mais restrições nos gastos públicos.

A reduzida escala da Islândia parecia tornar mais fácil desafiar a negação do governo de que havia uma crise iminente, mas o oposto também era verdade. O governo Oddsson realizou uma privatização extrema da informação. O Instituto de Economia Nacional da Islândia tinha a reputação de uma instituição com pensamento independente, e Oddsson acabou com isso em 2002. A partir de então, os bancos, agências internacionais de classificação de risco e a Câmara de Comércio foram praticamente a única fonte de informação e comentários sobre o estado da economia, presente e futuro.

Paradoxalmente, uma série de relatórios críticos foram publicados quando a bolha estava em seus estágios iniciais, incluindo um do BCI. Mas, por volta de 2007-08, quando havia perigos muito sérios, os relatórios, incluindo os do FMI, tornaram-se visivelmente mais suaves no tom. Parece que as instituições financeiras oficiais, bem como banqueiros e políticos, entenderam que a situação era tão frágil que bastaria falar dela para desencadear uma corrida aos bancos.

Em outubro de 2010, o parlamento decidiu indiciar o primeiro-ministro Haarde por violação de responsabilidade ministerial. O secretário permanente de finanças Baldur Gudlaugsson (ex-membro do grupo “Locomotiva”) foi sentenciado a dois anos de prisão por usar informações privilegiadas para a sua vantagem pessoal ao vender suas ações do Landsbanki, em setembro de 2008. Mas o promotor especial encarregado da investigação dos bancos já trabalha há 2 anos com uma equipe de 60 advogados e outros profissionais e até agora não formalizou nenhuma acusação.

Enquanto isso, Oddsson foi nomeado em setembro de 2009 editor-chefe do Morgunblaðið, principal jornal impresso na Islândia, e orquestrou a cobertura da crise. Um comentarista disse que isso seria o mesmo que nomear Nixon editor do Washington Post após Caso Watergate. A elite da Islândia sabe tomar conta dos seus.

Notas:

(1) World Database of Happiness (‘Banco de dados mundial da felicidade’), 2006: http://worlddatabaseofhappiness.eur.nl

(2) Na oposição estão o Partido Social-Democrata e, mais à esquerda, o Partido do Povo.

(3) Stefán Ólafsson e Arnaldur Sölvi Kristjánsson, “Income Inequality in a Bubble Economy: the Case of Iceland 1992-2008”, trabalho apresentado na Luxemburg Incomes Study Conference, 28 a 30 de junho 2010; www.lisproject.org/conferenc…

(4) Hannes Gissurarson, “Miracle on Iceland”, The Wall Street Journal, New York, 29 de janeiro de 2004.

(5) Danske Bank, “Iceland: Geyser Crisis”, Copenhagen, 2006.

(6) Arthur Laffer, “Overheating is not dangerous”, Morgunblaðið, Reykjavik, 17 de novembro 2007.

Robert Wade é professor titular de economia política da London School of Economics; Silla Sigurgeirsdottir professora de políticas públicas da Universidade da Islândia. Esta é uma versão atualizada do artigo “Lessons from Iceland”, publicado pela primeira vez no New Left Review, London, setembro/outubro de 2010.