
"A
quem interessa que a compra da Refinaria de Pasadena tenha sido um erro
e que a Petrobras seja classificada como uma empresa mal gerida e
quebrada?
Essa foi uma das
perguntas que os senadores membros da CPI da Petrobras - todos da
situação - fizeram ao ex-presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli,
na manhã de terça-feira (20).
“A Petrobras não pode ser
considerada uma empresa falida ou mal gerida. Isso é campanha da
oposição e luta política. Essas forças são contrárias à Petrobras e
querem desqualificá-la criando essa falsa imagem de que ela está em
crise”, disparou Gabrielli.
Nenhuma liderança do PSDB ou do DEM - que recorreram, inclusive, ao Supremo Tribunal Federal (STF) para garantir a investigação exclusiva sobre a Petrobras no Senado
- esteve no plenário ou integra a CPI como membro permanente. Eles
declinaram a participação mirando uma CPI mista, com menos espaço para o
governo.
Ao longo de três horas, Gabrielli respondeu a cerca de
200 perguntas, a maioria sobre a compra de uma refinaria no Texas,
Estados Unidos, pelo total de 1,2 bilhão de dólares, em 2006. Segundo a
atual presidente da Petrobras, Graça Foster, a aquisição, até o ano
passado, acumulou prejuízo de 530 milhões de dólares, mas nos dois
primeiros meses de 2014 registrou lucro líquido de 58 milhões de
dólares.
"Em 2006, Pasadena era um bom negócio. Em 2008, se
torna mau negócio porque reflete a mudança que houve no mundo em 2008
com a crise financeira. Reflete a mudança no mercado dos EUA, que
conseguiu reverter a desvantagem que tinha no passado com a venda de
petróleo mais leve. Em 2013, volta a ser bom negócio e em 2014 é
lucrativa. Compra petróleo leve no Texas que pode ser processado com
margem de 30 a 40 dólares por barril, e produz 100 mil barris por dia.
São 30 milhões de barris por ano. Se a margem de rentabilidade for de
10%, são 100 milhões de dólares de lucro por ano. Os dados são do
mercado, são públicos", pontuou.
Na avaliação do
ex-dirigente, as denúncias que a oposição ao PT levantam há meses sobre a
estatal têm como pano de fundo o destino da empresa e a exploração do
pré-sal. Ele lembrou que, em 2010, o site estrangeiro "Wikileaks" expôs
um telegrama em que o ex-presidenciável José Serra (PSDB) teria
sinalizado à petroleira [norte-americana] "Chevron" que mudaria as
regras para exploração e repartição dos lucros do pré-sal caso vencesse a
disputa eleitoral.

“Em 2009, o Congresso
Nacional começou a discutir o marco regulatório do petróleo brasileiro.
A primeira mudança com o marco foi definir que os lucros do pré-sal
seriam compartilhados entre Petrobras e Estado brasileiro. A segunda,
que a Petrobras será a operadora única do pré-sal. Há vazamento no
"Wikileaks" colocando de forma clara que a prioridade do próximo governo
[o da oposição, se vencer a disputa em outubro próximo] é desmontar
essa lei. Apareceram nomes de políticos, que prefiro declinar, mas são
políticos da oposição”, destacou.
Gabrielli apresentou dados
do último balanço financeiro da Petrobras para rebater as acusações de
que a empresa está afundada em dívidas. Segundo ele, os dados mais
recentes comprovam que o lucrou do primeiro trimestre de 2014 foi de 5
bilhões de reais. "Só não chegou a 7 bilhões porque reservou 2
bilhões para o programa de aposentadoria dos funcionários. A Petrobras
só toma empréstimo para crescer, não para resolver problemas de caixa.
Como falar que ela está em crise? A empresa é pujante, está em
crescimento.”
Corrigindo informações
O
ex-presidente da Petrobras aproveitou o depoimento no Senado sem
intervenções de oposicionistas para corrigir informações publicadas na
grande mídia. Para ele, um dos erros foi terem apontado que a compra de
Pasadena teria ocorrido “a toque de caixa”. Passou-se pelo menos um ano
desde setembro de 2005, quando a Petrobras fez uma proposta à detentora
de 100% da refinaria, a empresa belga "Astra Oil", até que os contratos
fossem assinados, no final de 2006, segundo explicou.
Gabrielli
também comentou a entrevista que o jornal "O Estado de S. Paulo"
publicou sobre o tema. Segundo ele, o veículo deu destaque para a parte
em que o ele diz que Dilma precisa assumir sua responsabilidade sobre a
compra da refinaria. A presidente havia afirmado que se soubesse das
cláusulas "Put Option" e "Marlim", que causaram desentendimentos entre
as sócias, não teria autorizado a compra. “Pinçar aquela frase é deslocar o que foi dito”,
avaliou Gabrielli. Não houve, de acordo com ele, tentativa de imputar a
responsabilidade da compra de Pasadena a Dilma simplesmente porque a
decisão sobre a compra é de um órgão colegiado.
“A presidente
Dilma é uma gerente de extrema competência. Ela tem posições muito
firmes. Porém as decisões Conselho de Administração da Petrobras são de
colegiado. Se ela colocasse uma posição [contrária à compra de Pasadena após saber das cláusulas], em
2006, não posso dizer qual seria a conclusão. Haveria debate. A
responsabilidade é da diretoria internacional da Petrobras e do
Conselho. A responsabilidade não é individualizada. O processo de compra
é coletivo.”

Gabrielli reforçou que
historicamente o Conselho de Administração da Petrobras desempenha o
papel de avalizar decisões estratégicas após as diretorias abaixo do
Conselho na hierarquia debaterem os processos. No caso da compra de
Pasadena, quem capitaneava a negociação desde o início era a diretoria
internacional da Petrobras, chefiada por Nestor Cerveró - que depõe na
CPI na quinta-feira (22).
“O Conselho toma decisões com base
em sumários executivos, não com base no sumário total, porque são
processos grandes. Não há condições de analisar tudo. Tudo precisa
passar antes pelo crivo das diretorias competentes. Logo, os membros do
Conselho receberam um sumário executivo sobre Pasadena", um sumário sem explicações sobre as cláusulas citadas. Apesar disso, elas não eram "determinantes" para o negócio. "O
que estava em jogo não eram as cláusulas, mas saber se iriamos expandir
nossa produção pelo mundo ou se ficaríamos apenas na Argentina e
Bolívia."
"SBM Offshore" e Paulo Roberto Costa
O
ex-presidente da Petrobras evitou se aprofundar nas questões acerca da
relação entra a estatal brasileira e a empresa "SBM Offshore". Ele
apenas refutou as acusações feitas na imprensa nos últimos meses,
dizendo que, à mídia internacional, a holandesa ["SBM Offshore"] desmentiu que haja informações contra a Petrobras por pagamento de propina a funcionários brasileiros. “Não há nenhum indício de propina. Não vou comentar porque desconheço esse tipo de informação”, resumiu.
Sobre a relação de
Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras preso na "Operação
Lava-Jato" da Polícia Federal - mas recentemente solto por determinação
do STF -, Gabrielli também disse pouco. Apenas que, no caso de Pasadena,
Paulo Roberto teria participado apenas de uma reunião com a sócia
"Astra Oil" para denotar que a Petrobras iria recorrer à justiça para
concluir o processo de rescisão da parceria no Texas."
FONTE: escrito por Cíntia Alves no "Jornal GGN"