Coronel reformado, Adilson Paes de Souza tem sido uma voz bastante ativa na defesa da desmilitarização das polícias brasileiras.
Agora, a Polícia Militar de São Paulo resolveu enviar uma nota
oficial rebatendo suas opiniões, buscando desqualificá-lo e a quem
concorda com ele.
A PM preferiu ir pelo viés ideológico.
Para a instituição, o correto talvez seja uma imensa fogueira como as
retratadas no filme “Fahrenheit 451″, de modo a que a
“intelectualidade” fique sujeita aos valores da Tradição, Família e
Propriedade. O filme, baseado na obra de Ray Bradbury, descreve um
governo totalitário que proíbe qualquer livro, prevendo que o povo possa
ficar instruído e se rebelar contra o status quo. As pessoas só têm
acesso à informação através da TV. Era assim no nazismo.
Na resposta da PM, a “ideia” de desmilitarização está vinculada ao grande plano comunista em marcha.
“Muito provavelmente a resposta esteja em outro século e em outro
continente, nascida da cabeça de alguém que pregou a difusão de um
modelo hegemônico, que se deve construir espalhando intelectuais em
partidos, universidades, meios de comunicação. Em seguida, minando
estruturas básicas e sólidas de formação moral, como família, escola e
religião”, diz a nota.
Intelectuais são um perigo, correto? Veja como prossegue: “Se não
fosse terrível, seria cômico, porque denota, sim, a construção de um
pensamento que se pretende coletivo, a partir de pessoas que se sentem
intelectuais.” A intelectualidade é um sentimento?
“Em que mundo esses ‘especialistas’ fundamentam suas teorias?”, pergunta o comunicado.
A questão da desmilitarização vem promovendo debates numa
periodicidade quase quinzenal com a comunhão de vários movimentos
sociais em torno do tema. Sobretudo coletivos da periferia e da
comunidade negra. São os “especialistas” em tratamento oferecido pela
PM.
As práticas adotadas pela instituição variam conforme a região da
cidade, a cor de pele do “suspeito” e da idade do “meliante”. O estudo
da UFSCar mostrado no DCM na semana passada confirma isso. Não se trata
de “achismo”, “fundamentalismo”, “comunismo” ou qualquer outra teoria de
conspiração que a PM queira desenvolver.
Nem mesmo quando busca demonstrar senso crítico a nota sensibiliza.
“Somos a instituição que mais depura seu público interno, sujeita a
regulamentos, códigos rígidos de conduta e com uma corregedoria
implacável contra agressores de policiais e contra policiais bandidos.”
Mas passados 21 anos do massacre do Carandiru, a Polícia Militar do
Estado de São Paulo não moveu nenhum processo administrativo disciplinar
contra os homens que atuaram naquele dia 2 de outubro de 1992. O
processo no qual 73 policiais militares já condenados (a maioria hoje
aposentada), foi pelo tocado pelo Ministério Público. Nenhum deles foi
punido pela corporação, nem recebeu qualquer tipo de anotação em suas
fichas profissionais.
Só isso já traduz o quanto a corporação está dissociada dos anseios da sociedade.
A nota da PM mais pareceu um manifesto da Marcha da Família a ser lido por Rachel Sheherazade sobre o caminhão de som.