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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Para a PM de São Paulo, a desmilitarização é parte de um grande complô comunista

pmesp

Coronel reformado, Adilson Paes de Souza tem sido uma voz bastante ativa na defesa da desmilitarização das polícias brasileiras.
Agora, a Polícia Militar de São Paulo resolveu enviar uma nota oficial rebatendo suas opiniões, buscando desqualificá-lo e a quem concorda com ele.
A PM preferiu ir pelo viés ideológico.
Para a instituição, o correto talvez seja uma imensa fogueira como as retratadas no filme “Fahrenheit 451″, de modo a que a “intelectualidade” fique sujeita aos valores da Tradição, Família e Propriedade. O filme, baseado na obra de Ray Bradbury, descreve um governo totalitário que proíbe qualquer livro, prevendo que o povo possa ficar instruído e se rebelar contra o status quo. As pessoas só têm acesso à informação através da TV. Era assim no nazismo.
Na resposta da PM, a “ideia” de desmilitarização está vinculada ao grande plano comunista em marcha.
“Muito provavelmente a resposta esteja em outro século e em outro continente, nascida da cabeça de alguém que pregou a difusão de um modelo hegemônico, que se deve construir espalhando intelectuais em partidos, universidades, meios de comunicação. Em seguida, minando estruturas básicas e sólidas de formação moral, como família, escola e religião”, diz a nota.
Intelectuais são um perigo, correto? Veja como prossegue: “Se não fosse terrível, seria cômico, porque denota, sim, a construção de um pensamento que se pretende coletivo, a partir de pessoas que se sentem intelectuais.” A intelectualidade é um sentimento?
“Em que mundo esses ‘especialistas’ fundamentam suas teorias?”, pergunta o comunicado.
A questão da desmilitarização vem promovendo debates numa periodicidade quase quinzenal com a comunhão de vários movimentos sociais em torno do tema. Sobretudo coletivos da periferia e da comunidade negra. São os “especialistas” em tratamento oferecido pela PM.
As práticas adotadas pela instituição variam conforme a região da cidade, a cor de pele do “suspeito” e da idade do “meliante”. O estudo da UFSCar mostrado no DCM na semana passada confirma isso. Não se trata de “achismo”, “fundamentalismo”, “comunismo” ou qualquer outra teoria de conspiração que a PM queira desenvolver.
Nem mesmo quando busca demonstrar senso crítico a nota sensibiliza. “Somos a instituição que mais depura seu público interno, sujeita a regulamentos, códigos rígidos de conduta e com uma corregedoria implacável contra agressores de policiais e contra policiais bandidos.”
Mas passados 21 anos do massacre do Carandiru, a Polícia Militar do Estado de São Paulo não moveu nenhum processo administrativo disciplinar contra os homens que atuaram naquele dia 2 de outubro de 1992. O processo no qual 73 policiais militares já condenados (a maioria hoje aposentada), foi pelo tocado pelo Ministério Público. Nenhum deles foi punido pela corporação, nem recebeu qualquer tipo de anotação em suas fichas profissionais.
Só isso já traduz o quanto a corporação está dissociada dos anseios da sociedade.
A nota da PM mais pareceu um manifesto da Marcha da Família a ser lido por Rachel Sheherazade sobre o caminhão de som.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

GENOCIDAS


Ao anunciar o assassinato de Osama Bin Laden, Barack Obama disse que se fazia ali “a justiça pelos mais de três mil mortos nas Torres Gêmeas” (sic) [Bin Laden é, até hoje, apenas suposto envolvido no ataque de 11 de setembro de 2001. Não conseguiram provas do seu envolvimento].

E quando se fará justiça pelos quase um milhão de mortos entre o Iraque e o Afeganistão? Isso para não retroagirmos mais tempo na história.

Por Izaías Almada, em artigo publicado originalmente no “Blog da Boitempo”

A sociedade norte-americana, maior consumidora de drogas do mundo, amanheceu cantando e dançando no último dia 02 de maio, comemorando o assassinato de Osama Bin Laden.

No cipoal de artigos, análises, entrevistas, boatos, depoimentos e discursos que caracterizaram o show mediático anunciador da morte de Osama Bin Laden, um dos pontos que mais me chamou a atenção (o mesmo aconteceu com a eleição de Barack Obama em 2008) foi –e continua sendo– a montagem de um ardiloso e não menos sibilino marketing político de comunicação em massa.

Em 2008, o mundo foi enganado com a perspectiva de os EUA elegerem um negro (ou devo dizer afrodescendente?) para a Casa Branca. A lógica por trás dos arranjos políticos da elite norte-americana pressupunha criar para o mundo uma imagem menos selvagem e conservadora depois de oito anos de governo Bush. Afinal, pensaram os “estrategistas”, vejam só como a nossa democracia funciona: já suportamos eleger um negro (ou devo dizer afrodescendente?) e de ascendência muçulmana para a presidência dos Estados Unidos da América. Poderiam até ter tentado uma mulher –Hillary Clinton– mas preferiram queimar uma etapa… E escolheram um afrodescendente. Somos de fato uma democracia ou alguém aí na platéia duvida?

No caso atual, o que menos interessa é saber se Bin Laden [era culpado ou não] se estava armado ou não, se houve cooperação paquistanesa ou não, se foi um golpe eleitoral para 2012 ou não, ou até as tais especulações sobre a veracidade da morte no dia anunciado ou mesmo antes, como algumas notícias procuraram sugerir e divulgar.

Claro que historiadores e sociólogos têm o direito e o dever de investigar à exaustão a era Bush Jr/Obama para se entender a rearticulação do capitalismo no pré e no pós período neoliberal mais ativo da contemporânea economia capitalista e ajudar-nos a compreender a geopolítica da força bruta, das invasões de países sob falsos argumentos, da chantagem nuclear, enfim, desse império que insiste em se autodeclarar “defensor da democracia”, seja lá o que isso signifique nos dias de hoje para eles e para nós.

Ninguém chega à presidência dos EUA sem vender a alma ao diabo. Só os ingênuos acreditariam numa bobagem dessas. Barack Obama teve que compor com a indústria do tabaco, com a indústria armamentista, com a indústria farmacêutica, com os grandes grupos midiáticos, com a indústria automobilística, com os magnatas do petróleo, ou jamais alcançaria a presidência. Suas promessas de campanha eram areia nos olhos dos incautos e seus quatro anos de governo mostraram isso até agora.

A mentira e a dissimulação são dois dos principais argumentos da diplomacia norte-americana para o mundo. Há mesmo quem afirme, como faz o Dr. Steve R. Pieczenik, assistente do Secretário de Estado de três presidentes, consultor do Departamento de Defesa e ex-capitão da Marinha dos EUA, que o atentado às Torres Gêmeas em 2001 foi “um trabalho interno”.

Há poucos dias, tomei conhecimento da foto de uma menina iraquiana, na época com cinco anos de idade, chorando e toda suja de sangue, tendo ao lado um soldado norte-americano armado com sua metralhadora. A menina escapara de saraivada de balas contra o carro dos seus pais, que morreram impiedosamente. Na matéria, uma segunda foto mostrava a mesma menina hoje já adolescente e que via, pela primeira vez, a foto descrita acima. Sua expressão na segunda foto é de espanto, dor e um olhar de tristeza. Ali estava mais um (in)feliz ser humano "protegido do terrorismo muçulmano".

E é disso que se trata: por trás da arrogância, do show midiático para incautos, dos discursos repletos de piadinhas infelizes pelo meio, as chamadas autoridades norte-americanas, a começar pelo seu atual presidente, inundam o mundo com seu cinismo, com suas empáfias sustentadas por arsenal atômico inigualável, com seu total desrespeito pelo ser humano. Desrespeito esse que tem um emblema dos mais aterradores para aqueles que ainda querem acreditar em outros valores humanos: Barack Obama recebeu o prêmio Nobel da Paz. Onde está o maior cinismo: nos que lhe atribuíram o prêmio ou no próprio premiado?

Ao anunciar o assassinato de Osama Bin Laden, Barack Obama disse que se fazia ali “a justiça pelos mais de três mil mortos nas Torres Gêmeas” [sic]. E quando se fará justiça pelos quase um milhão de mortos entre o Iraque e o Afeganistão? Isso para não retroagirmos mais tempo na história.

Mais sinistro ainda: o ex-vice presidente de Bush Jr, senhor Dick Cheney, ao ser entrevistado pela rede de televisão “Fox News”, digna porta-voz do que de mais repugnante exibe a ultradireita norte-americana, sustentou que a descoberta de Bin Laden se deveu a informações extraídas em “simulações de afogamento”, um tipo de tortura aplicada pela CIA. E, pasmem todos, que defenderia que esse método de interrogatório voltasse a ser praticado.

A insensibilidad]e, a arrogância, a prepotência, a mentira, a desinformação proposital, o deboche, a vilania, o cinismo, a intolerância, o preconceito –e eu poderia acrescentar inúmeros outros substantivos– são hoje os valores que a democracia norte-americana tem a oferecer ao mundo. Nem mais, nem menos. O mais que posso fazer ao escrever esse artigo –o que é muito pouco para a sanha de tão deletérios criminosos– é usar o único adjetivo que lhes cabe: GENOCIDAS.

O mundo precisa de um novo tribunal Bertrand Russel/Jean-Paul Sartre. Como também precisamos nos acostumar à idéia de que não existiu apenas um Adolf Hitler.”

FONTE: escrito por Izaías Almada, escritor e dramaturgo, em artigo publicado originalmente no “Blog da Boitempo”