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sexta-feira, 8 de maio de 2015

A cracolândia e o Helicoca

A cracolândia
A cracolândia

Dos problemas aparentemente insolúveis do Brasil, um dos mais dramáticos é a cracolândia.
Desde pelo menos 2005, quando a prefeitura de São Paulo fechou bares e hoteis naquela região, a situação apenas piorou.
Um novo programa retirou barracos e “favelinhas”. Cada investida desse tipo serve para espalhar viciados pelo centro.
A novidade é que a atual ação vai “asfixiar” o comércio de drogas, rastreando e prendendo os fornecedores. Quem fará esse trabalho? A Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana.
No ano passado, a diretora do Denarc, Elaine Biasoli, falou dos esforços na área: “Nós temos ação diária, costumeira, rotineira. Desde dezembro, prendemos 65 traficantes só na cracolândia”. 65, repito. Em 2007, foram 270.
Volta e meia, uma detenção dessas é divulgada com estardalhaço. Salete Madalena de Souza Araújo, de 52 anos, tida como “cabeça de uma quadrilha”, foi apanhada com 2 quilos de crack, coca e maconha, além de cem celulares. Dois quilos, repito.
Jéssica Helena Martins Silva, de 25 anos, estava dentro de um Fiat Siena com 3,6 quilos de cocaína, 3 de maconha, uma pistola calibre 380 e munições.
Ambas estão apodrecendo em alguma cadeia.
A cracolândia movimenta um sistema corrupto do qual a polícia faz parte. Em 2014, dois policiais civis foram acusados de ser traficantes. Que fim levaram? Ninguém sabe, ninguém viu.
Considere o caso do Helicoca. O helicóptero do então deputado Gustavo Perrella, filho do senador Zezé, foi flagrado com meia tonelada de pasta base de cocaína no Espírito Santo. A PF avaliou a carga em 10 milhões de reais. Refinada, valia pelo menos cinco vezes isso.
Um ano e seis meses depois, ninguém foi preso. Em semanas, o delegado responsável inocentou os Perrellas. Os homens envolvidos diretamente no flagrante estão soltos, do piloto ao motorista que foi pegar o entorpecente.
Uma escala da aeronave num hotel fazenda no interior de São Paulo, onde ficaram 50 quilos, foi ignorada. O juiz federal Marcus Vinícius Figueiredo de Oliveira Costa deu um parecer: “Há realmente diversos aspectos que dependem de investigação, como a origem da droga apreendida, a dúvida sobre a internacionalidade, o papel dos envolvidos e a possível participação de terceiros”.
Não puniram vivalma no episódio do Helicoca, mas a Salete e a Jéssica, perigosas meliantes da cracolândia, estão em cana. Alguma coisa está fora da ordem.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O estranho caso do helicóptero engavetado


A mídia não quis investigar o caso do helicóptero dos Perrelas
A mídia não quis investigar o caso do helicóptero dos Perrelas
Se você me pergunta qual foi o maior papelão da mídia brasileira em 2013 respondo com meia tonelada de motivos que foi o caso do helicóptero dos Perrelas.
Só no Brasil 500 quilos de cocaína não são notícia.
Na Indonésia, uma senhora britânica de 56 anos foi condenada à morte, por fuzilamento, por ser presa com cinco quilos de cocaína. Cem vezes menos, portanto.
Na mídia de Londres, ela é chamada de “Vovó Inglesa’, por ter netos. Sua defesa ainda luta para transformar a pena de morte em prisão perpétua.
Na Indonésia, como na China, a lei é extraordinariamente severa com o tráfico de drogas em consequência dos traumas sofridos no século 19, quando os britânicos impuseram, na base dos canhões, aos asiáticos o consumo de ópio. Essa página obscena do império britânico passaria à história como as Guerras do Ópio, sobre as quais escrevi algumas vezes no DCM.
Longe de mim sugerir rigor asiático no combate ao tráfico.
Mas, jornalisticamente, 500 quilos de cocaína não são nada? Pelo comportamento da mídia brasileira, não são nada.
Ninguém se esforçou, então, para trazer luz para o escândalo. Ao contrário, todo mundo tentou esconder a notícia, provavelmente para preservar Aécio Neves, amigos dos Perrelas e conhecido festeiro.
Todos sabem o que teria ocorrido caso os donos do helicóptero fossem amigos não de Aécio, mas de Lula, ou Dirceu.
Na ausência de qualquer esforço investigativo, o assunto foi minguando e hoje é quase nada.
O helicóptero foi, simplesmente, engavetado.
No futuro próximo, a internet terá recursos suficientes para bancar investigações que a mídia corporativa não quer fazer. Ou o crowdfunding – o financiamento da comunidade de leitores – ou a publicidade trará dinheiro que hoje é escasso.
Até lá, as pessoas interessadas em jornalismo independente e informação isenta terão que conviver com coisas estapafúrdias como este caso.
Notícia, para a mídia ‘livre’, é aquilo que é favorável a ela ou a seu grupo de amigos e parceiros, e desfavorável para seus desafetos.
Compare a cobertura dada ao helicóptero com a cobertura dada a uma oferta de emprego para Dirceu, e você vai entender o que move a mídia.
Por isso ela é tão desacreditada.
E por ser tão revelador do espírito bipolar das grandes companhias jornalísticas, o caso do helicóptero é o Fracasso do Ano da mídia brasileira.
Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.