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quinta-feira, 22 de maio de 2014

está a fim de um carro zero?

O Leitor tenciona mudar de carro?
Sorte sua espreitar Informação Incorrecta, o blog que tudo sabe e todos ajuda. Melhor do que Wikipedia.

Que tal um concessionário no Reino Unido? Este, por exemplo, fica em Sherness, à beira do rio Medway, não longe de Londres. É só escolher:

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Pouca escolha? Não me parece: o de cima é só um pormenor, a visão total é esta:


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Há escolha, fique descansado o Leitor. São todos carros novinhos em folha, nem uma mácula. Só que ninguém os compra, por isso ficam aí, semanas, meses. Aproveitam o ar do sul da Inglaterra.

Será que o Leitor prefere um carro americano? Gosta do American Dream? E seja.
Porto de Baltimore, no Maryland:

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Já viu aquele SUV branquinho? Nada mal, não é? O dourado? Não, é foleiro, fique com o branquinho, confie em mim. No caso, há outras cores também: só no porto de Baltimore são 57.000 automóveis à espera. E o número não para de crescer.

"Mas eu sempre tive Nissan..."
Ah, marca japonesa, muito bem, qualidade e durabilidade. Mas por isso temos que voltar para o Reino Unido, em Sunderland, onde há a fábrica europeia da Nissan:

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Esta era uma pista para os testes, mas agora é um enorme parque, cheio de carros que ninguém compra. E, dado que a pista não era suficiente, a Nissan comprou também alguns terrenos ao lado:

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"E em Espanha não há nada?"
Espanha? Claro que há. Que tal Valencia? Sol, praias, paella...e carros não vendidos:

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Mas se gosta do clima mediterrâneo, pode pensar na Italia também. Eis o porto de Civitavecchia, perto de Roma: cada um daqueles pontinhos é um Peugeot. Novo. E regularmente não vendido. Pena só a foto não ser das melhores, mas sabe como é: italianos, não prestam...

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"Uhhh, quanto carros não vendidos...a Europa está mesmo mal, não é?"
Na verdade não, não é só um problema ocidental. Eis um aeroporto perto de de S. Petersburgo, na Rússia:

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Há centenas de lugares assim no mundo. Sempre houve, só que agora os carros não transitam, mas ficam. A razão? Simples: os carros são produzidos por empresas cujas fábricas não podem parar. Se a fábrica parar, param os trabalhadores também. Mas também os fornecedores e os trabalhadores deles. O que seria da indústria metalúrgica? Das minas? Dos transportadores? Dos publicitários?

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É um círculo no qual cada um tem que desenvolver o seu próprio papel: projectista, fornecedor, escravo do fornecedor, construtor, escravo do construtor, vendedor, consumidor.
Só que nos últimos tempos o consumidor recusou a compra de novos carros. Preguiça? Não, não é bem assim. É mais "falta de dinheiro", uma doença que ciclicamente atinge as camadas médias e baixas da sociedade. Uma espécie de vírus.

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Desta vez o vírus teima em não desaparecer e o consumidor não compra: fica com o carro velho. Pior: quando finalmente decide comprar, quer a última versão do seu automóvel favorecido. E as versões anteriores, aquelas que até poucos meses atrás eram apresentadas como o topo da tecnologia, da segurança e do estilo? Ficam aí, nos parques.

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"Bom, os construtores poderiam aplicar uns fortes descontos e começar a livrar-se destes carros todos que estão parados há meses...."
Desconto? Li bem? O Leitor disse desconto? Ó Leitor, mas onde acha que estamos aqui, no País de Borla? Não há descontos para ninguém, os construtores nunca iriam abdicar duma margem de lucro e, verdade seja dita, merecem todos os cêntimos que conseguem juntar com o trabalho dos outros.

Não, nada de desconto, se o Leitor quer um carro toca pagar, e tudo.
E mais: fique a saber que os construtores já encontraram a solução.

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"E qual?"
Simples: muitas casas automobilísticas já deslocaram a produção para a China, como a General Motors por exemplo. Os carros aí produzidos são depois carregados em navios que entregam os produtos no mundo todo.

"Mas o problema é o mesmo: depois nos portos ficam os carros não vendidos!"
Erro, meu caro Leitor, erro: os Estados Unidos, por exemplo, já decidiram limitar a importação. E, dado que a maior dos chineses não pode permitir-se um carro ocidental, estes ficam em enormes parques na China.

E como se costuma dizer: longe dos olhos, longe do coração e do cérebro também.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Crise terminal do capitalismo?

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Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo. A capacidade de o capitalismo adaptar-se a qualquer circunstância chegou ao fim.

Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adaptar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.

A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.

A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.

O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.

Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em Portugal 12% no país e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas, mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.

A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.

Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.

As ruas de vários países europeus e árabes, os “indignados” que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhóis gritam: “não é crise, é ladroagem”. Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumossacerdotes do capital globalizado e explorador.

Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da superexploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Emir Sader: “O IMPERIALISMO, FASE ATUAL DO CAPITALISMO”


“Mesmo sabendo que o Brasil não votou a favor da resolução da ONU sobre o ataque à Líbia, Obama teve a deselegância de dar a ordem de começo da operação militar em solo brasileiro, durante sua viagem relâmpago ao nosso país. Ao mesmo tempo, esbanjou charme, ele e sua mulher, fez elogios fartos ao Brasil e a Dilma –mesmo se muito parco nos acordos concretos.

A visita de Obama permitiu conhecer de perto as duas caras do mesmo do rosto da potência imperial. A fisionomia pode ser grosseira, como a do seu antecessor, Bush, ou ter a cara simpática de Obama, mas a política continua sendo a mesma: imperial, belicista, agressiva.

Porque os EUA não são apenas um país rico. São a cabeça do sistema imperialista mundial. Um sistema que teve sua origem no sistema colonial, aquele que, desde a Europa, submeteu os países dos outros continentes, os explorou, os oprimiu –usando trabalho escravo da África–, dividiu-os entre si e constituiu um sistema internacional de poder que passou a controlar o mundo, sob hegemonia inglesa.

A decadência inglesa abriu campo para uma disputa de sucessão entre duas potências emergentes –a Alemanha e os EUA-, que as duas guerras mundiais resolveram a favor deste último. Ao mesmo tempo, as formas de dominação foram mudando. Da ocupação direta, que considerava que as colônias faziam parte dos territórios do país colonizador, foi se passando a formas de dominação que conviviam com a independência politica dos países dominados, mas submetidos a forte controle econômico, tecnológico e militar. Foi se passando do sistema colonial ao sistema imperialista, que tem nos EUA sua cabeça fundamental. Fundem-se no poder norte-americano o poder econômico, político, tecnológico, militar e ideológico.

O imperialismo e os monopólios são a consequência natural da concorrência capital no mercado, em que os mais fortes se tornam cada vez mais fortes, os poderosos cada vez mais poderosos. A concentração de renda e de poder é resultado obrigatório das condições da concorrência, em que o Estado tem papel estratégico, seja de favorecer os grandes grupos econômicos, seja de promover os interesses das grandes potências nos conflitos internacionais.

Os EUA passaram a defender os interesses do bloco capitalista em escala mundial, mediante sua força militar, sua capacidade de ação política, de exportação global dos valores das suas formas de vida –o “modo de vida norte-americano”. Defendeu esse bloco durante a Guerra Fria –do término da Segunda Guerra Mundial até o fim da URSS (de 1945 a 1991)– contra os “riscos do comunismo”.

Terminado esse período, passaram a buscar inimigos que justificassem a manutenção e a contínua militarização da sua economia e dos conflitos. Encontraram no “terrorismo” esse novo inimigo. As guerras do Afeganistão, do Iraque e agora da Líbia, expressam a forma concreta que essa luta adquire –contra países árabes, portadores de recursos energéticos que os países ocidentais não dispõem ou dispõem de forma insuficiente.

Por que governantes de partidos distintos, com estilos diferentes, acabam defendendo os mesmos interesses: respeitando antes de tudo o poder dos bancos, da indústria bélica, mantendo as guerras iniciadas e começando outras? Porque, para além daquelas diferenças, se mantém o mesmo papel imperialista dos EUA? Porque é um Estado que tira sua legitimidade, sua força, dessa função de líder do bloco das potências capitalistas no mundo.

As guerras sempre foram parte integrante na afirmação da superioridade imperialista. Aproveitando-se da sua superioridade no plano militar, tratam de resolver os conflitos pela força, impõem-se a seus aliados valendo-se dessa superioridade militar. Assim, os EUA se tornaram a potência mais bélica da história da humanidade, não apenas pelo seu poderio militar, mas também pela quantidade de invasões, agressões, desembarques, participações em golpes militares.

Mesmo com a economia em recessão, os EUA mantêm sua capacidade de intervenção militar, de forma direta ou através de aliados, em quase todas as regiões do mundo, de que a Líbia agora é a confirmação. A luta pela democracia no mundo passa pela ruptura do mundo unipolar e a passagem a um mundo multipolar, em que o maior número de vozes possíveis sejam ouvidas para decidir os destinos da humanidade, até aqui concentrados nas mãos do maior império e o mais agressivo que a história conheceu.”

FONTE: escrito pelo cientista político Emir Sader

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

As origens do mal

Como o imperialismo europeu transformou uma região pacífica no mais famoso barril de pólvora geopolítica da atualidade. Por Edilson Adão. Foto: Ahmad Gharabl/AFP

Os frequentes atos extremistas que assolam o Oriente Médio remetem à pergunta: hoje palco de tamanha violência, por que Jerusalém foi há pouco mais de um século lugar de convivência respeitosa entre judeus, muçulmanos e cristãos? Devemos considerar que até então a cidade encontrava-se sob a tutela do império turco-otomano, cujo califa de outrora, o sultão Osman III, através de um edito de 1757, delimitou muito bem os direitos e competências de cada religião que entendia ser sua a sagrada Jerusalém. As maiores confusões ficavam por conta dos cristãos, particularmente durante a Páscoa, quando a boa convivência dava lugar a vergonhosos acirramentos entre gregos ortodoxos, católicos armênios, coptas egípcios, maronitas sírios e outras comunidades cristãs. Mas, no geral, a convivência era boa e pautada pela tolerância, salvo excessos eventuais. Certa vez, entrevistei um octogenário palestino que me disse ser um judeu o melhor amigo de seu pai. Vizinhos, era -comum caminharem juntos pelas ruas da Palestina; seu pai virava à esquerda e entrava na mesquita, o amigo à direita para a sinagoga. Finalizadas as orações, encontravam-se na saída e continuavam o passeio. Essa utópica cena para os dias de hoje foi fato um dia na Terra Santa.

Não obstante celeumas ideológicas, é quase impossível não atribuir ao imperialismo europeu (logo, ao capitalismo), o barril de pólvora em que se transformou o Oriente Médio. O desarranjo lógico do território forjou ali as mais es-drúxulas unidades sem o mínimo lastro histórico-geográfico que justificasse a existência de certos países, em particular às margens do Golfo Pérsico, mas também nas areias do deserto. Fronteiras mal formuladas construíram gradativamente o clima de tensão que hoje se abate na região. A tensão evoluiu para violência na segunda metade do século XX, cujas três últimas décadas assistiram ao surgimento de um novo fenômeno: o fundamentalismo.

INTOLERÂNCIA: FENÔMENO DO SÉCULO XX
Quem matou o Mahatma Gandhi? Quem matou Yitzhak Rabin? Quem matou Anwar Sadat? Cada um desses líderes foi morto pelo fundamentalismo intrínseco à sua própria religião.

Apesar de litígios religiosos serem antiquíssimos, é no século XX que o extremismo torna-se fenômeno comum. Temos notícias de atentados religiosos desde o fim do século XIX, quando a Irmandade Muçulmana lutava contra o domínio britânico no Egito. Mas o parâmetro contemporâneo para aquilo que se convencionou designar como “fundamentalismo” podemos encontrar na Revolução Islâmica de 1979, quando o Irã converteu-se em uma teocracia xiita.

Contudo, é no cristianismo que residem os primórdios do fundamentalismo. Suas raízes estão ligadas ao protestantismo cristão norte-americano do século XIX, cuja leitura literal e dogmática da Bíblia difundia a crença de uma supremacia cristã e a não aceitação de outras verdades religiosas, fundamentos que tanto contribuíram para a formação da cultura Wasp (White, Anglo-Saxon and Protestant ou Branco, Anglo-Saxão e Protestante). Líderes norte-americanos passaram a se inspirar nesses preceitos para a orientação do modo de vida, num claro enfrentamento com a modernização da sociedade. Nessa linha, o homem deve pautar-se numa leitura ortodoxa da palavra de Deus, o Ser infalível que orienta todo o modus vivendi da sociedade. Para os fundamentalistas, qualquer interpretação da vida que não encontre uma justificativa bíblica deve ser refutada. A Bíblia não deve ser interpretada, como fazem os teólogos mais progressistas, mas simplesmente obedecida, pois é a verdadeira palavra de Deus: basta segui-la. A História, a Geografia e, principalmente, a Biologia nada acrescentam ao conhecimento. O evolucionismo deve ser banido como teoria e ser substituído plenamente pelo criacionismo – esta, sim, uma teoria embasada na palavra divina. O fundamentalismo consiste nesse comportamento de obediência extrema a um credo religioso, que não aceita conviver com outra perspectiva ou forma de explicação da vida. Há uma única verdade: Deus.

Na perspectiva fanática, portanto, a crença do outro está equivocada. Acontece que, quando o outro pensa da mesma forma, aflora a intolerância e a coexistência torna-se impossível. Resultado: conflitos e mortes. A origem disso é cristã, mas, nos dias de hoje, é o fundamentalismo islâmico o mais atuante de todos e seus feitos, os mais impressionantes.

O fundamentalismo é um movimento reacionário, pois pretende um retorno- aos valores tradicionais que fundamentam sua crença, numa clara oposição ao secularismo e à modernidade. A emergente Índia, por exemplo, candidata à condição de potência econômica nos anos vindouros, tem no combate ao extremismo religioso interno seu maior desafio. O Partido do Congresso, laico, tenta, a duras penas, construir uma nação secular, mas o oposicionista Barhatya Janart Party (BJP), de orientação fundamentalista hindu e que já governou nos anos 1990, luta por uma Índia teocrática, caminhando no sentido contrário e investindo na supremacia bramanista perante uma minoria muçulmana de mais de 150 milhões de habitantes. A atmosfera indiana é de pura tensão.

Tendo como grande ícone a Revolução Islâmica, a opção fundamentalista não ficou restrita ao xiismo; inclusive, nos dias de hoje, é na vertente do sunismo que temos os principais grupos atuando. A falta de atenção, no entanto, pode levar muitos a incorrer no mais comum dos erros: a confusão entre islamismo e fundamentalismo, visto que o noticiário pouco contribui ao discernimento das diferenças, podendo levar a entender o extremismo religioso como circunscrito ao islamismo. Sobre o significado da palavra Islã, o xeque Jihad Hassan Hammadeh, vice-presidente da Assembleia Mundial da Juventude Islâmica, uma das maiores autoridades brasileiras no assunto, informa que “islã”, na língua árabe, deriva da palavra “salam”, que significa paz, portanto, a essência da religião islâmica é a paz, seu alicerce é a paz, por isso é que a definição de islam é: submissão total e voluntária a Deus Único, então quem é voluntário a Deus deve praticar o que Ele ordena, que é a justiça, a paz, o amor, a solidariedade etc. Quanto à violência, a religião islâmica proíbe qualquer ato de injustiça contra qualquer ser e inclui também a agressão contra o meio ambiente. Deus disse no Alcorão (livro sagrado dos muçulmanos): “E quem tirar uma vida inocente é como se tivesse assassinado toda a Humanidade, e quem salvá-la é como se tivesse salvado toda a Humanidade”, portanto, o muçulmano é proibido de cometer qualquer ato de agressão injusta, dando-lhe, somente, o direito à legítima defesa, que é direito de qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo e em todas as religiões. Deus disse no Alcorão Sagrado: “E se punirem,- que punam da mesma forma como foram punidos,- e quem tiver paciência, é melhor para os pacientes”.

Alguns estudiosos do Islã afirmam ser equivocada a expressão “fundamentalismo” para designar os atos extremistas que marcaram o fim do século XX. Em sua concepção, o termo é totalmente infeliz, uma vez que se faz uma adaptação da realidade cristã à islâmica. Tal analogia é então descabida, pois as escolas de filiação religiosa são distintas. Enquanto no cristianismo a interpretação do fundamentalismo é visceralmente conservadora, antimodernista e arraigada aos valores tradicionais da Bíblia, no Islã, dá-se o contrário. Logo, o que vemos e classificamos hoje como fundamentalismo islâmico é exatamente o oposto daquilo que pregam os verdadeiros estudos dos fundamentos do Islã. Regimes como o iraniano ou o que era vigente até há pouco tempo no Afeganistão seguem o oposto daquilo que seriam os “fundamentos do Islã.”

Edilson Adão Cândido da Silva é mestre em Ciências pela USP, autor de Oriente Médio: A Gênese das Fronteiras (Editora Zapt) e professor de Geopolítica e Teoria das Relações Internacionais no Ensino Superior

segunda-feira, 28 de junho de 2010

PARA CAPITALISTA NORTE-AMERICANO, O PT É O PARTIDO DO CAPITALISMO BRASILEIRO!


Em matéria da Folha de S.Paulo, o empresário norte-americano Sam Zell diz que vai investir no Brasil o quanto for necessário, não tem limite, desde que tenha boas oportunidades de
negócios. É esta a visão que um capitalista norte-americano tem do
governo Lula (A hilariante revista Veja acha que é comunismo,
Kakaka).

O PT, por uma contingência da história, parece ser o partido que está solidificando o capitalismo no Brasil, apesar de que ainda vai demorar muito para chegarmos em um estágio de competição capitalista em setores
importantes como telefonia, transportes, comunicação e outros. Mas já é o
começo.

Daí a dificuldade do candidato José Serra nas próximas eleições. O PSDB é um partido que tem mantido há 16 anos no estado de São Paulo um sistema feudal de acesso às riquezas, com nenhuma distribuição de renda,
nenhuma grande transformação na educação e nenhuma política de
competição capitalista em setores oligopolizados. Até os capitalistas
americanos sabem disso. Veja abaixo trecho da matéria da Folha:

O bilionário americano Sam Zell, 68, está no Brasil, hoje e amanhã, para expandir os investimentos do grupo Equity International no país que considera a próxima “potência mundial”.
“O quanto vamos investir depende das oportunidades. Até hoje, nenhuma
foi maior do que o nosso apetite por capital”, afirmou Zell à Folha,
por telefone, de Chicago.
O grupo de private equity já tem participações em cinco empresas
brasileiras, entre elas a Gafisa e a BR Malls, que tem atualmente 35
shoppings em seu portfólio.
Entusiasta do Brasil, Zell atribui ao presidente Luiz Inácio Lula da
Silva o reconhecimento do país como “uma das oportunidades mais
atraentes do mundo”.
O empresário americano minimiza o risco de superaquecimento da economia
brasileira. “O país vai muito bem. Prefiro investir em um país
quente demais a investir em um país frio”, diz.

domingo, 16 de maio de 2010

Miséria é o principal "produto" do capitalismo!!


O capitalismo tem legiões de defensores. Muitos o fazem de boa vontade, produto de sua ignorância e pelo fato de que, como dizia Marx, o sistema é opaco e sua natureza exploradora e predatória não é evidente ante os olhos de homens e mulheres. Outros o defendem porque são seus grandes beneficiários e amassam enormes fortunas, graças às suas injustiças e iniquidades.

Além do mais há outros ("gurus" financeiros, "opinólogos", jornalistas "especializados", acadêmicos "pensadores" e os diversos expoentes do "pensamento único") que conhecem perfeitamente bem os custos sociais que, em termos de degradação humana e do meio-ambiente, o sistema impõe.

No entanto, são muito bem pagos para enganar as pessoas e prosseguem com seu trabalho de forma incansável. Eles sabem muito bem, aprenderam muito bem, que a "batalha de ideias", à qual Fidel Castro nos convocou, é absolutamente estratégica para a preservação do sistema, e não retrocedem em seu empenho.

Para resistir à proliferação de versões idílicas acerca do capitalismo e de sua capacidade para promover o bem-estar geral, examinemos alguns dados obtidos de documentos oficiais do sistema pelas Nações Unidas.

Isso é sumamente didático quando se escuta, principalmente no contexto da crise atual, que a solução aos problemas do capitalismo se obtém com mais capitalismo; o que o G-20, o FMI, a OMC e o Banco Mundial, arrependidos de seus erros passados, vão poder resolver os problemas que provocam agonia à humanidade. Todas essas instituições são incorrigíveis e irreformáveis, e qualquer esperança de mudança não é nada mais que uma ilusão. Seguem propondo o mesmo, só que com um discurso diferente e uma estratégia de "Relações Públicas", desenhada para ocultar suas verdadeiras intenções. Quem tiver dúvidas que olhe o que está propondo para "solucionar" a crise na Grécia: as mesmas receitas que aplicaram e que seguem aplicando na América Latina e na África desde os anos 1980!

A seguir, alguns dados (com suas respectivas fontes) recentemente sistematizados pelo Programa Internacional de Estudos Comparativos sobre a Pobreza (CROP, na sigla em inglês), da Universidade de Bergen, na Noruega. O CROP está fazendo um grande esforço para, a partir de uma perspectiva crítica, combater o discurso oficial sobre a pobreza elaborado há mais de trinta anos pelo Banco Mundial e reproduzido incansavelmente pelos grandes meios de comunicação, autoridades governamentais, acadêmicos e vários "especialistas".

População mundial: 6,8 bilhões, dos quais:
  • 1,02 bilhão têm desnutrição crônica (FAO, 2009)
  • 2 bilhões não têm acesso a medicamentos (www.fic.nih.gov)
  • 884 milhões não têm acesso a água potável (OMS/UNICEF 2008)
  • 924 milhões de "sem teto" ou que vivem em moradias precárias (UN Habitat 2003)
  • 1, 6 bilhão não tem eletricidade (UN Habitat, “Urban Energy”)
  • 2,5 bilhões não tem acesso a saneamento básico e esgotos (OMS/UNICEF 2008)
  • 774 milhões de adultos são analfabetos (www.uis.unesco.org)
  • 18 milhões de mortes por ano devido à pobreza, a maioria delas de crianças com menos de 5 anos (OMS)
  • 218 milhões de crianças, entre 5 e 17 anos, trabalham em condições de escravidão ou em tarefas perigosas ou humilhantes, como soldados, prostitutas, serventes na agricultura, na construção civil ou na indústria têxtil (OIT: A Eliminação do Trabalho Infantil: Um Objetivo a Nosso Alcance, 2006)
  • Entre 1988 e 2002, os 25% mais pobres da população mundial reduziram sua participação na riqueza global de 1,16% para 0,92%, enquanto que os 10% mais ricos acrescentaram mais riquezas, passando de 64,7 para 71,1% da riqueza produzida mundialmente. O enriquecimento de poucos tem como reverso o empobrecimento de muitos.
  • Só esse 6,4 % de aumento da riqueza dos mais ricos seria suficiente para duplicar a renda de 70% da população da Terra, salvando inumeráveis vidas e reduzindo as penúrias e sofrimentos dos mais pobres. Entenda-se bem: tal coisa seria obtida se tão só fosse redistribuído o enriquecimento adicional produzido entre 1988 e 2002, dos 10% dos mais ricos do planeta, deixando intactas suas exorbitantes fortunas. Mas nem sequer algo tão elementar como isso é aceitável para as classes dominantes do capitalismo mundial.

Conclusão: Se não se combate a pobreza (nem fale de erradicá-la sob o capitalismo!) é porque o sistema obedece a uma lógica implacável, centrada na obtenção do lucro, o que concentra a riqueza e aumenta incessantemente a pobreza e a desigualdade econômico-social.

Depois de cinco séculos de existência, isto é o que o capitalismo tem para oferecer. Que esperamos para mudar o sistema? Se a humanidade tem futuro, será claramente socialista. Com o capitalismo, em troca, não haverá futuro para ninguém. Nem para os ricos, nem para os pobres. A sentença de Friedrich Engels, e também de Rosa Luxemburgo: "Socialismo ou barbárie", é hoje mais atual e vigente que nunca. Nenhuma sociedade sobrevive quando seu impulso vital reside na busca incessante do lucro, e seu motor é a ganância. Mais cedo que tarde provoca a desintegração da vida social, a destruição do meio ambiente, a decadência política e uma crise moral. Todavia ainda temos tempo, mas não muito.

Fonte: Jornal La República, Espanha

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Revolta na Grécia: o povo não quer se sacrificar pelos banqueiros!

http://www.atarde.com.br/arquivos/2008/12/67473.jpg

A Grécia foi paralisada nesta quarta-feira (5) por uma greve geral da classe trabalhadora contra o novo pacote negociado pelo governo social-democrata liderado pelo primeiro-ministro George Papandreou com o Fundo Monetário Internacional e a União Europeia. O protesto foi temperado por manifestações de rua e confrontos com a polícia. Pelo menos três pessoas morreram.

Por Umberto Martins

Houve uma adesão generalizada ao movimento. O país amanheceu sem transportes, o comércio fechou a partir das 12 horas, as escolas não abriram, os serviços públicos não funcionaram, os navios permaneceram imobilizados nas docas, hospitais operaram em esquema de emergência, as máquinas ficaram ociosas nas fábricas, jornalistas, advogados e médicos também decidiram cruzar os braços.

Contra o FMI

Pela manhã, cerca de 60 mil pessoas marcharam no centro de Atenas portando faixas e gritando palavras de ordem contra o governo e o FMI. Em mais de uma ocasião, a polícia reprimiu o povo com gás lacrimogêneo e cassetetes. Alguns manifestantes revidaram e houve confrontos.

A greve envolveu trabalhadores e trabalhadoras de setores públicos e privados, evidenciou o poder da classe unida (nenhum país funciona e nada se produz sem a força de trabalho) e foi mais um vigoroso pronunciamento popular em defesa de direitos e conquistas arrancados com muita luta no passado, assim como contra as falsas soluções para a crise que o governo quer impor por determinação do FMI e da cúpula da União Europeia.

Partido Comunista

O Partido Comunista da Grécia (KKE) esteve à frente dos protestos e fez um apelo ao conjunto dos trabalhadores europeus para unificar forças com os gregos e enfrentar a ofensiva reacionária das classes dominantes no contexto da crise fiscal provocada pela dívida externa.
A mensagem rebelde dos grevistas transpareceu nas faixas e cartazes exibidos nas ruas de Atenas: “taxem os ricos”, “não pagaremos pela crise dos ricos”, “não toquem nas nossas pensões”, entre outras do mesmo gênero.

As razões dos trabalhadores e trabalhadoras, apoiados por mais de 50% da nação, segundo pesquisas recentes, são fortes. O pacote sugerido pelo FMI e acatado pelo governo social-democrata prevê redução e congelamento de salários, corte de benefícios e direitos como 13º e 14º salários, flexibilização da legislação trabalhista, elevação da idade mínima para aposentadoria e aumento de impostos. Tais medidas devem ser analisadas nesta quinta-feira (6) pelo Parlamento, onde o governo tem maioria.

O pensamento das classes dominantes, transmitido pelo FMI, pelos analistas e porta-vozes dos mercados e reiterado ad nauseam pela mídia, sustenta que não há outra saída, mas isto não é verdade, ou melhor, é a verdade do capitalismo neoliberal. O pronunciamento do social-democrata Papandreou pedindo o “sacrifício” do povo, por sinal, soa patético no eco da greve.

Filme antigo

Para a oligarquia financeira, fração hegemônica da classe capitalista na economia moderna, certamente o pacote do FMI é a melhor e quem sabe a única solução possível. Afinal, todo o “plano de austeridade” foi bolado precisamente para impedir a moratória e garantir o pagamento dos juros, embora seja cinicamente apresentado como a “salvação da pátria”.

O povo brasileiro já viu este filme. A intervenção intermitente do FMI na política econômica a partir de janeiro de 1983 até o último governo FHC viabilizou o pagamento dos juros da dívida externa contraída pelo regime militar, mas resultou em mais de duas décadas perdidas, redução substancial da participação dos salários no PIB, precarização das condições e relações de trabalho, desemprego em massa, desnacionalização, privatização e outras misérias.

Dois pesos e duas medidas

A perspectiva para a Grécia não é diferente, talvez seja pior. Estima-se que o país não retomará os níveis nominais do seu PIB antes de 2017. Como todas as amargas receitas do FMI, a que está sendo sugerida aos gregos tem um nítido caráter recessivo e um sentido oposto ao que foi e ainda vem sendo feito pelas potências capitalistas para reverter a crise irradiada pelos EUA.

Obama incorreu num déficit público superior a 1,6 trilhão de dólares em 2009, a dívida pública americana se aproxima de 15 trilhões de dólares, Tio Sam vive muito além dos seus meios e isto cria sérios desequilíbrios para a economia mundial. Mas o FMI não ousa dar palpites, ninguém recomenda aos norte-americanos gastar menos e poupar mais para pagar a dívida.

Crise do capitalismo

A Grécia não é um caso isolado, constitui um elo frágil do imperialismo europeu, a exemplo de Portugal e Espanha. A crise no país helênico é sintoma de uma patologia mais profunda cuja raiz remete ao processo de reprodução do capital no interior da ordem imperialista e de valorização do capital na esfera financeira.

É uma crise do capitalismo neoliberal e da atual ordem imperialista. Uma solução justa e progressista não será alcançada nos marcos deste sistema. Esta é a mensagem de fundo que deve ser percebida na greve geral que paralisou a Grécia nesta quarta-feira. O protesto que abalou o euro e a Europa é um grito indignado contra aqueles que dizem que não há outra solução fora da racionalidade irracional do capital financeiro. A luta da classe trabalhadora e dos povos há de abrir novos caminhos para a sociedade humana e não só na Europa.

domingo, 21 de março de 2010

Por que o capitalismo vai morrer.


Empresas querem dar sentido ao trabalho
Autor: Por Mauricio Oliveira, para o Valor, de São Paulo
Valor Econômico - 19/03/2010

A motivação de funcionários nem sempre precisa estar associada a bônus em dinheiro ou aumento de salário. Excelentes resultados podem ser obtidos com custo zero para a empresa. "Saber que o seu trabalho pode fazer a diferença na vida de pessoas é muito mais efetivo para extrair o máximo da equipe do que a promessa de participação nos resultados", diz Oscar Porto, diretor-geral da Medtronic no Brasil, fabricante de equipamentos médicos. Sua empresa organiza todo fim de ano o Holiday Program, evento criado pela companhia nos Estados Unidos, onde clientes contam aos funcionários o quanto são beneficiados pelos produtos da empresa.
Isso não é uma manifestação isolada de estupidez, é a materialização do pensamento empresarial. Os liberais dizem desde o século XVII que a busca do lucro é o motor do progresso, que a soma do egoísmo individual leva à prosperidade geral, ou seja, eles - empresários, executivos e acionistas - são movidos pelo lucro, pelo dinheiro, mas nós, trouxas que produzimos riqueza real, nos contentamos com "reconhecimento", "fazer a diferença" e coisas do gênero.
nada jamais vai mudar a opinião da minoria rica de que eles precisam de toda a liberdade possível para ganhar a maior quantidade de dinheiro - dinheiro nenhum é suficiente, sempre se pode ganhar mais - mas nós, os outros 95% da população - podemos e queremos viver de "motivação".

Café de graça não existe para eles, mas para nós basta a "sensação" de fazer a diferença e a "motivação" para produzirmos lucros infindáveis "com custo zero" como eles gostam.