[Glória efêmera: Joaquim Barbosa será enterrado
vivo pela mídia como imbecil se tiver coragem de julgar o mensalão do
PSDB e não ficar somente na frase acima]
De Paulo Moreira Leite, da Revista “Época”
“O alvoroço provocado pela notícia de que Marcos Valério pode ter
informações comprometedoras contra Lula, Antônio Palocci e até sobre o
caso Celso Daniel chega a ser vergonhoso.
Desde a denúncia de Roberto Jefferson que Valério tem demonstrado grande disposição para colaborar com a polícia.
Foi ele quem entregou a relação de 32 beneficiários das verbas do mensalão, inclusive Duda Mendonça.
Conforme os advogados de um dos réus principais, ao longo do processo
Valério fez quatro tentativas de oferecer novas delações em troca de uma
redução de sua pena. As quatro foram rejeitadas.
Uma das delações de Valério seletivamente abafada pelo STF e pela mídia?
O estranho, agora, não é a iniciativa de Valério, mais do que
compreensível para quem se encontra numa situação como a sua. Não estou
falando apenas dos 40 anos de prisão.
As condenações de José Dirceu e José Genoíno se baseiam em “
não é possível que não soubessem”, “
não é plausível”, “
um desvio na caminhada” e assim por diante.
Eu acho legítimo pensar que deveriam ser questionadas em novo
julgamento, o que certamente poderia ser feito se tivessem direito a uma
segunda instância, como vai ocorrer com os réus do mensalão PSDB-MG que
foram desmembrados nestes “
dois pesos, dois mensalões”, na antológica definição de Jânio de Freitas.
Parece muito difícil questionar o mérito das acusações contra Valério.
Ele participava de um esquema para levantar recursos de campanha. Mas
seu interesse era comercial, digamos assim. Pretendia levantar R$ 1
bilhão até o fim do governo, disse Silvio Pereira, secretário geral do
PT, em entrevista a Soraya Agege, do “Globo”, em 2006.
Era o titular do esquema, o dono das agências de publicidade, aquele que
recolhia e despachava o dinheiro, inclusive com carros forte e conta em
paraíso fiscal.
O estranho, agora, não é o comportamento de Valério. São os outros.
É a torcida, o ambiente de vale-tudo.
Ele teve sete anos para apresentar qualquer informação relevante. A
menos que tenha adquirido o costume de criar dificuldades para comprar
facilidades até com a própria liberdade, o que não é bem o costume dos
operadores financeiros, seu silêncio sugere a falta de fatos importantes
para revelar. Ele enfrentou em silêncio a denúncia do primeiro
procurador, Antônio Carlos Fernando de Souza, em 2006. Assistiu do mesmo
modo à aceitação da denúncia pelo Supremo, em 2007. Deu não se sabe
quantos depoimentos a Justiça e a Polícia. Seu advogado, Marcelo
Leonardo, um dos mais competentes do julgamento, escreveu não sei
quantas alegações finais no STF.
Nem mesmo quando preso por outras razões, tomava porrada de colegas de
presídio numa cadeia, lembrou que poderia contar algo para se proteger?
A verdade é que os adversários de Lula não conseguem esconder a vontade
de que Valério tenha grandes revelações a fazer. Deveriam estar acima de
tudo desconfiados e cautelosos, já que as circunstâncias não garantem a
menor credibilidade a qualquer denuncia feita DEPOIS que um réu
enfrenta uma condenação de 40 anos e não se vislumbra nenhum atenuante
para amenizar a situação.
É preocupante porque nós sabemos que é possível transformar versões falsas em fatos verdadeiros.
Basta que os melhores escrúpulos sejam deixados de lado, as versões
anunciadas sejam convenientes e atendam aos interesses de várias partes
envolvidas. O país tem longa experiência com essa turma. Ela denunciou
um grampo telefônico que não houve [
o famoso grampo virtual de uma
autoelogiosa conversa entre o senador (DEM) Demóstenes Torres, da
quadrilha do criminoso Cachoeira, e o Ministro do STF Gilmar Mendes,
grampo esse fictício que, publicado com grande estardalhaço, serviu de
pretexto (ou para isso a reportagem fora planejada) para ameaçarem Lula
de impeachment...] . Falou de uma conta em paraíso fiscal –
do próprio Lula e outros ministros – que eles próprios sabiam que era falsa. Também denunciou “
uma caixa”
de [talvez] dólares enviados do exterior para a campanha de 2002 que
ninguém foi capaz de abrir para dizer o que tinha lá dentro.
Na prática, os adversários de Lula querem que Valério entregue aquilo que o eleitor não entregou.
O próprio Valério sabe disso. De seu ponto de vista, qualquer coisa será
melhor do que enfrentar uma pena de 40 anos, concorda? Qualquer coisa.
Do ponto de vista dos adversários de Lula, também. Qualquer coisa é
melhor do que uma longa perspectiva de derrotas, não é mesmo? Talvez não
por 40 anos mas, quem sabe, mais quatro?
É por isso que os interesses das partes, agora, coincidem. O mocinho da oposição tornou-se Valério.
No mundo [
criado agora pelo STF para julgar membros do PT] do “
não é possível”, do “
é plausível”, do “
não pode ser provado, mas não poderia ser de outra forma
” as coisas ficam fáceis para quem acusa. A moda ideológica, agora, é
acusar de bonzinho quem acha que a obrigação da prova cabe a quem acusa.
E eu, que pensei que a
presunção da inocência era um direito constitucional e fazia parte das garantias fundamentais. Mas não. Isso é ser bonzinho, é se fazer de ingênuo.
No novo figurino, as “
coisas parecem verdadeiras porque não podem ser provadas”. É a inversão da inversão da inversão. O movimento estudantil tem uma corrente que se chama “
negação da negação”. Estamos dando uma radicalizada…
A experiência ensina que há um meio infalível de levantar uma credibilidade em baixa. É a “
ameaça de morte”, o que explica a lembrança do caso Celso Daniel.
Os advogados dizem que Valério sofreu “
ameaças de morte”. Já se fala nos cuidados com a segurança pessoal e da família. Também, li que a Polícia Federal “
ainda“ não decidiu protegê-lo.
Algumas palavras têm importância especial em determinados momentos. A
morte de Celso Daniel foi acompanhada por várias suspeitas de crime
político mas, no fim de três meses de investigação, a Polícia Civil de
São Paulo concluiu que fora crime comum.
Um delegado da Polícia Federal, que seguiu o caso e até participou das
investigações a pedido de Fernando Henrique Cardoso, chegou à mesma
conclusão. O caso parecia encerrado. Os suspeitos estavam presos,
confessaram tudo e aguardavam julgamento. Quem fala em aparelho petista
deve lembrar que a investigação tinha o respaldo do comando da polícia
do governo Alckmin e da PF no tempo de FHC.
O caso saiu dos arquivos quando um irmão de Celso Daniel alegou que sofria “
ameaça de morte”.
Fiz várias entrevistas com familiares e policiais e posso afirmar que
nunca ouvi um fato consistente. Nem um grito ameaçador ao telefone. Nem
um palavrão no trânsito. Nem um empurrão no bandejão da faculdade.
Nunca. Respeito aquelas pessoas, fomos colegas de luta no movimento
estudantil, mas aquilo me pareceu uma história sem consistência. Eu ia
fazer uma matéria sobre essa denúncia, mas aquilo não dava uma linha.
Não havia sequer um fato para ser narrado. Nem um boato para ser
desmentido. Nada. Fiquei impressionado porque eu havia entrado na
história achando que havia alguma coisa, seja lá o que fosse. Nada. Mas a
família conseguiu o direito até de viver exilada na França. O caso foi
reaberto e, embora uma segunda investigação policial tenha chegado à
mesma conclusão, o suspeito de ser o mandante aguarda o momento de ir a
julgamento.
Nos últimos meses, com o julgamento no mensalão, os adversários de Lula
pensavam que seria possível reverter o ambiente político favorável a
Lula, no país inteiro. É esse ambiente que coloca a reeleição de Dilma
no horizonte de 2014, embora muita enxurrada possa passar por debaixo da
ponte. Mas, no momento, essa perspectiva, para a oposição, é
insuportável e dolorosa –
até porque ela não foi capaz de reavaliar
suas sucessivas derrotas do ponto de vista político, não fez um balanço
honesto dos acertos do governo Lula, o que dificulta aceitar que o país
tem um presidente popular como nenhum outro antes dele, a tal ponto que
até postes derrotam medalhões vistos como imbatíveis. No seu apogeu, a ideia de renovação sugerida por FHC foi descartada como “
proposta petista” por José Serra. Assim fica difícil, né.
(
Vamos homenagear os postes. Essa expressão foi cunhada por uma das
principais vozes da luta pela democratização, Ulysses Guimarães, para
quem “poste” era o candidato capaz de representar os interesses do povo e
da democracia, mesmo que fosse um ilustre desconhecido. Certa vez,
falando sobre a vitória estrondosa do MDB em 1974, quando elegeu 17 de
26 senadores, Ulysses falou que, naquela eleição, o partido elegeria
“até um poste.” Postes, assim, são candidatos que entendem o vento da
sua época.)
Semanas antes da eleição do
poste Fernando Haddad, o procurador-geral Roberto Gurgel chegou a dizer que "
ficaria muito feliz se o julgamento influenciasse a decisão do eleitor" [
contra o PT]. Muita gente achou natural um procurador falar assim.
Eu não fiquei surpreso porque sempre achei a denúncia politizada demais,
cheia de pressupostos e convicções anteriores aos fatos. Eu acho que a
denúncia confunde “
aliança política” com “
compra de votos” e “
verba de campanha” com “
suborno”, o que a leva a querer criminalizar todo mundo que vê pela frente –
embora, claro, tenha sido seletiva ao separar [e proteger, esconder, fatiar, esvaziar]
o mensalão PSDB-MG, como nós sabemos e nunca será demais lembrar. Mas não achei o pronunciamento do procurador natural. Em todo caso, considerando a liberdade de expressão…
Mas a fantasia oposicionista era tanta que teve gente até que se despediu de Lula, lembra?
Embora o julgamento [do STF] tenha caminhado na base do “
não é plausível”, “não
poderia ter sido de outro jeito” e outras considerações pouco conclusivas e nada robustas, faltou combinar com o eleitor.
Em campanha própria, com chapa pura, os adversários de Lula tiveram uma
grande vitória em Manaus. Viraram a eleição em Belém onde o PSOL não
quis apoio de Lula. Ganharam em Belo Horizonte em parceria com Eduardo
Campos, que até segundo aviso é da base de Lula e Dilma.
O PT cresceu no número de prefeituras, no número de votos em escala
nacional, e também levou o troféu principal da campanha, a prefeitura de
São Paulo. Mesmo com a vitória em Salvador, os partidos conservadores, à
direita do PSDB, tiveram a metade do eleitorado reunido em 2008. Isso
aí: perderam 50% dos votos.
É nesse ambiente que Valério passa a ter importância. Quem não tem voto, caça com Valério.”
FONTE: artigo de Paulo Moreira Leite, da revista “Época”.